sábado, 26 de abril de 2008

Capítulos 7- FINAL


CENA 1


E a chuva voltara com gosto. Caía forte, fria. Ventava. Os raios cortavam o céu, seguidos pelo estrondo dos trovões. Quase impossível andar assim. Quanto mais correr.
Mas Carlos não se importava. Molhado dos pés à cabeça, lutando para manter os olhos abertos, ele corria sem direção. A luz não havia voltado ainda. A rua estava imersa na escuridão.
Escorregou de novo. Caiu numa poça d’água. Levantou-se, escorregou mais uma vez. Era difícil manter o equilíbrio.


- Porcaria! Maldita Amanda! Eu pego você! – gritava, quase sem voz.
Começou a tremer. Espirrou. Já pegara chuva de manhã, mais essa agora. Ficaria resfriado.
Um ônibus dobrou a esquina.
- Ah, não! Só faltava essa!


A rua estava alagada. O ônibus veio, levantando aquela água pra todos os lados. Carlos disparou. O motorista percebeu, mas em vez de diminuir, pisou fundo.


- Carlos! Aqui! – gritou alguém.


Uma casa estava de portão aberto. Sem pestanejar, o rapaz pulou lá dentro e se protegeu atrás do muro. O ônibus passou, rugindo, molhando mais ainda a calçada.


- Essa foi quase, não? – disse a mãe de Helena, da porta da sala.
- Nossa, se foi – suspirou Carlos, tomando fôlego.
- O que faz debaixo desse toró? Dançando na chuva?


Dona Selma era sempre brincalhona.


- Não, não – o rapaz não deu explicações.
- Entra, vem. Vou pegar uma toalha pra você.
- Eu preciso ir.
A mulher fez cara de desaprovação:
- Nem pensar. Desse jeito, vai pegar uma “pneu”. Entra, a Leninha acabou de chegar, tá lá em cima tomando banho.
Carlos espirrou de novo. Melhor obedecer.


CENA 2


Carlos se secou e ficou na sala, esperando. Dona Selma pediu desculpas pela bagunça, não tivera tempo de arrumar. Foi procurar uma vela.
A sala estava escura, naturalmente.


- Não precisa se incomodar – disse o rapaz, por educação.


Lá de cima, vinha o barulho do chuveiro e a voz lastimável de Helena, acompanhando uma música que tocava em um rádio de pilha:


- Uuuuh, I need your love...
- Credo – Carlos fez uma careta. – Ainda bem que ela não ganha a vida cantando.
Tropeçou em alguma coisa.
- Que isso?
Abaixou-se: uma tesoura.
- Pessoal descuidado – pensou consigo mesmo. Apanhou o objeto e tentou encontrar uma mesa.


Não dava pra ver nada.
Foi tateando.


- Hold me... love me... – empolgava-se Helena.


Carlos esbarrou numa cadeira. Pensou em sentar-se, mas teve a idéia de verificar se não tinha algum prego, ou alfinete. Do jeito que as coisas andavam...
Fez bem: uma caixa de tachinhas aberta bem sobre o assento.


- Vou te contar, viu? – riu mais uma vez.
Estendeu a mão e encontrou a mesa. Pousou a tesoura sobre ela. Estranhou. A superfície era mais macia que o normal. Passou os dedos.
- Um jornal.
Um raio clareou tudo por um instante e Carlos pôde ver: eram vários jornais sobre a mesa, espalhados. E picotados.
- O que significa isso? – o rapaz arregalou os olhos, não acreditando.


Dessa vez, só o rádio cantou:


- Eight days a week... – e um novo raio revelou a “admiradora secreta” de pé, no alto da escada.


CENA 3


- Helena...


Ela o olhava sem reação. Estava mais surpresa do que ele. Não esperava ser descoberta assim, daquele jeito.


- Você o tempo todo – balbuciou Carlos, sem saber o que estava sentindo.
Helena desceu:
- Às vezes as coisas são tão óbvias que não conseguimos ver.
Os dois ficaram frente a frente.
- Por que você fez isso?
A garota não respondeu. Não sabia. Tinha vontade de sumir, de tanta vergonha.
- Olha, Carlos – ela tentou, mas deteve-se.
- Fala!
- Eu sempre gostei de você – arriscou a menina, com a voz embargada. – Mas você nunca olhou pra mim. Por isso...
- Você devia ter me falado! – ele interrompeu, ríspido. Começou a se irritar. Lembrou de tudo o que passou, de todos os enganos, humilhações, enfim.
Dona Selma apareceu:
- Desculpe, ainda não achei as velas – ela não se deu conta do que se passava. – Mas Helena já está aí, né?
- Já, mãe – a filha fez um esforço pra falar.
- Então, fiquem à vontade.


Helena deixou uma lágrima cair dos olhos. Carlos teve pena. Não disse mais nada. Afastou-se.


- Espera, onde você vai?
- Não há mais nada pra fazer aqui.
- Não, por favor! – ela o agarrou pela camisa.
- Deixe-me ir, Helena.
- Vamos conversar!
- Conversar o quê? Está tudo mais do que claro. Você me fez de palhaço. Se divertiu às minhas custas! – e segurou a maçaneta da porta.
- Eu amo você, seu idiota! – ela gritou.


Tudo silenciou, de repente. A chuva, lá fora, deu um tempo. O rádio, lá em cima, parou de tocar.
Só se ouvia a respiração ofegante de Carlos e Helena.


- Não brinca assim comigo. Eu já sofri demais.
- Você acha que, se eu estivesse brincando, me arriscaria dessa maneira? Dentro da minha própria casa, com a minha mãe ali e tudo?
Carlos baixou a guarda:
- Como posso acreditar em você?


Ela não respondeu. Acariciou o rosto dele, aproximou o seu, olhou-o bem fundo nos olhos e deixou seus lábios serem tocados, uma cena bonita, com a qual ela sempre sonhou.
E dona Selma, com as velas na mão, preferiu deixar tudo no escuro mesmo.


THE END (ou seja, “o fim”)


Notas: só pra esclarecer, “Eight Days a Week” é uma música dos Beatles, assim como o “Love Me Do”, da segunda carta.

domingo, 20 de abril de 2008

6º capítulo


Penúltimo capítulo

CENA 1

A sexta-feira amanheceu nublada e, perto do fim da manhã, desabou a maior chuva. Por isso, ao tocar o sinal, quem não levou sombrinha tratou de se juntar com quem tinha se prevenido.
Carlos, de pé sob a marquise em frente ao portão, ganhou a companhia de Helena.

- Ficou na mão também? – perguntou a garota.
O barulho da água caindo era tanto que ele quase não a escutou.
- Trouxe sim – respondeu Carlos, mostrando a mochila. – Estou só esperando o Henrique.

Mal acabou de falar, Henrique passou dentro de um carro com José e Amanda.

- Eu acho que ele já foi – disse Helena, só por dizer.

Carlos ficou olhando. Henrique sempre voltava com ele, fizesse sol ou chuva. Será que aquela bolada foi assim tão grave? Helena percebeu sua tristeza.

- Fica assim não. Já que não tem Henrique, serve Helena?
O garoto esboçou um sorriso:
- Não se preocupe – e armou a sombrinha – Entra aqui debaixo. É pequeno, mas dá pros dois.
Ela concordou.

CENA 2

Helena morava perto de uma praça. Tinha a idade de Carlos e o conhecia desde criança. Porém, os dois nunca tiveram muito contato. Ela era mais achegada à Deise, três anos mais velha.

- Eu gravei o seu filme – começou Carlos.
- Qual era?
- Curtindo a Vida Adoidado.

Helena arregalou os olhos:

- Nossa! Esse é bem antigo.
- É.
- Eu já vi uma penca de vezes. Sabe qual a parte que eu mais gostei?

O menino fez que não com a cabeça.

- A do desfile. Aquela que o cara sobe no palanque e começa a cantar – ela impostou a voz: - twist and shout... come on, come on, come on... Carlos não conteve a risada:
- Quem canta assim?
- Os Beatles.
- Eu sei – brincou o garoto. – Me refiro a sua voz de taquara rachada.
Helena se fez de ofendida:
- Bobo. Até parece que você canta bem.
- Melhor que você, sim.
- Depois a gente disputa um videokê – desafiou ela, continuando: - mas essa parte é muito maneira. Eu me amarro nos Beatles, sabe?
- Hã? – ele duvidou, incrédulo.
- Que foi?
- Como alguém da sua idade pode se “amarrar” numa coisa dessas? Eles são do tempo dos meus pais!
- E daí? Eu cresci ouvindo essas músicas. – e de novo, com a sua voz lastimável: - come on, come on, come on...
- Pára, pára, eu acredito! – implorou o amigo.
Ela riu.

CENA 3

Os dois seguiram um pouco em silêncio. Helena andava um palmo à frente de Carlos, que era mais alto e podia, assim, posicionar o guarda-chuva de modo a proteger os dois. Lado a lado não dava, só abraçados. O que estava fora de cogitação.

Isso causou uma situação engraçada: os dois tinham de caminhar no mesmo ritmo. Se um acelerasse, o outro tinha de acompanhar. Se um parasse sem avisar, ou Helena se molhava ou Carlos trombava com ela.

- Parecemos soldados em marcha – disse a menina, brincando: - Um dois, um dois!
Carlos não disse nada.
- Ainda chateado?
- Sim, mas não com o Henrique – e se calou novamente.
Helena parou sem avisar e os dois trombaram.
- Ei, cuidado!
Ela o olhou:
- O que está acontecendo?
- Nada.
- Está sim, você está estranho.
- Coisa minha – desconversou ele e recomeçou a andar.
Helena permaneceu parada na chuva.
- Vem, menina. Vai ficar aí se molhando?
Ela enxugou o rosto:
- Tem que ver com a Amanda, não?
Carlos a encarou:
- Como sabe? – e tapou a boca.
- Vai me contar o que houve ou quer que eu adivinhe o resto?
- O que você tem a ver com isso? – retrucou o menino, grosseiro.
Helena virou as costas:
- Idiota.

E foi embora na chuva mesmo.

CENA 4

O resto do dia transcorreu sem novidades. Choveu o tempo todo e, pra piorar, ainda faltou luz. Debruçado na janela, Carlos via o tempo passar e tentava esquecer os últimos acontecimentos. Incrível como tudo pode mudar de um dia pro outro. A noite caiu e a escuridão tomou conta da rua.

- Melhor ligar pra Light e ver se a luz volta – disse, consigo mesmo.
Fez o movimento de fechar a janela, mas deteve-se. Seus olhos quase saltaram das órbitas:
- Ei, você!

Uma pessoa estava agachada diante da caixa de correio. Por causa da penumbra, não dava pra saber quem era. Seria a “admiradora secreta”?

- Agora eu pego você! – gritou, e desceu correndo as escadas. Deise, mais uma vez, quase foi atropelada. De um salto, Carlos escancarou a porta e precipitou-se varanda afora.
Tomou aquele escorregão:
- Ai, droga!
A irmã apareceu na porta, rindo de se acabar:
- Procurando o que fazer?
- Eu vi! Era ela, Deise!
- Ela quem? – a moça não entendeu.
Sem responder, Carlos foi até o portão, mancando. Abriu a caixa do correio e tirou o envelope de lá:
- Aqui!

Deise foi logo ver, curiosa:

- Caramba! A tal admiradora!

Carlos foi até a calçada. Já a tinha perdido de vista.

- Fugiu de novo. Desgraçada, mas é hoje que eu te pego – e saiu correndo rua abaixo.
- Espere, não vai abrir a carta? – gritou a irmã, balançando o envelope.
O irmão já ia longe.
Deise, então, não se conteve e abriu a correspondência. Leu. Exclamou, surpresa:
- Eu não acredito!

[suspense no ar]

sábado, 12 de abril de 2008

Capítulo 5


CENA 1


A casa da Patrícia ficava do outro lado do viaduto. Era uma meia-água, que tinha aos fundos a encosta de um morro, tomada pelo mato. Duas palmas foram suficientes para acordar o boxer que tomava conta do quintal. Por sorte, ele estava preso.

- Pode vir! – chamou a dona da casa.
Carlos hesitou:
- Não morde?
- Morde – confirmou Patrícia, bem séria.


O garoto estancou no portão. A menina caiu na risada, enquanto o cachorro lutava pra se livrar das correntes:

- Ô, Carlos, larga mão de ser medroso! Não vê que o Popinho está preso?
- Popinho? – o rapaz achou graça. – Tá de sacanagem.
Henrique apareceu na janela:
- Anda logo, moleque! O bicho não vai lhe fazer mal. Patrícia já deu almoço pra ele.
- Hoje não – riu a dona da casa.
- Ele vai se soltar – choramingou Carlos. Ele era medroso assim mesmo. Mas por fim arriscou um passo.
- Pega, Pópi! – gritou Henrique. Carlos entrou correndo.


CENA 2

Lá dentro, passando por um corredor estreito, ficava a sala, um cômodo grande e espaçoso, mas com poucos móveis.
Ali Henrique, sentado no chão, analisava uns papéis.


- Tá vivo?
Carlos lhe deu aquela olhada:
- Palhaço.


Patrícia lhe jogou um livro:

- Todo seu. Império Romano.
- Ah, não! Logo o mais difícil?
- Quem manda ser o mais inteligente?


A contragosto, o recém-chegado se acomodou num canto e começou a ler. Henrique e Patrícia ficaram olhando.

- Ei, o que foi? Ninguém vai fazer nada?
- Eu já fiz – replicou Henrique, mostrando um dos seus papéis.


Carlos olhou:

- O escudo do Flamengo?
Os três voltaram às gargalhadas.
- Esse estudo está interessante – comentou uma voz feminina, tendo ao fundo os latidos do Popinho.
Era Raíssa, que acabava de chegar. Junto dela, José e Amanda, os irmãos que se amavam.
- Vamos dar um tempo? – sugeriu José, mostrando uma bola.


Ninguém gosta mesmo de estudar.

CENA 3

O grupo subiu a rua e chegou a uma espécie de clareira aberta no mato. Era a quadra.

- Vamos tirar os times.

José e Henrique, os mais velhos, foram para a escolha. Na primeira rodada, Raíssa com José e Amanda com Henrique. Armaram a rede e se posicionaram.
O primeiro saque foi por conta de Raíssa. Saiu forte, em cima da Amanda. Ela, porém, conseguiu defender e mandou para Henrique, que devolveu na medida. Amanda saltou e soltou o braço.
Indefensável.
Agora foi Henrique quem sacou. José interceptou, Raíssa levantou e o irmão da Amanda completou. Jogo empatado.


[corte de cena]

Na beira do campo, sentado ao lado de Patrícia, Carlos não estava muito à vontade. Não por causa dela, e sim porque a cada ponto marcado Henrique e Amanda se abraçavam, aquele abraço com toda a intimidade. Só faltava o beijo.

- O que houve? – estranhou Patrícia. – Está vermelho.
- Deve ser o calor.


De certa forma era.

CENA 4

O combinado foi a partida terminar quando uma das duplas fizesse dez pontos. O placar marcava 9 a 8 para Henrique e Amanda. Só que o saque estava com os adversários.
Raíssa se concentrou. Quicou a bola no chão. José lhe fez um sinal com os dedos. Ela deu o impuso e... VAP! Soltou a bomba.


A redonda foi em cima de Henrique, que acabou se atrapalhando. Antes de a bola bater no chão, contudo, Amanda mergulhou e salvou, mantendo a bola no ar. Henrique não teve o que fazer a não ser devolver para a outra quadra.

José recebeu com calma e passou para Raíssa. A garota fez o levantamento. José saltou e não aliviou: mandou a bola com tudo. Mas o golpe não foi suficiente para vencer a sua irmã, que fez nova defesa e levantou para Henrique. Raíssa saltou do outro lado, pronta para o bloqueio. Henrique, então, deu um leve toque e encobriu a adversária.
Ponto!


- Vencemos! – gritou Amanda, pulando no colo de Henrique. Os dois caíram no chão, um sobre o outro, numa comemoração pra lá de efusiva.
E Carlos virou o rosto pra não ver.


- Tomara que vençamos de 10 a 0 – pensou o rapaz, enciumado. Sentia-se ofendido. Qual era a da Amanda? A vontade que tinha era de sumir dali.
Carlos, porém, não foi o único a se doer com o “entrosamento” dos vencedores.
- Ei, relaxa – pediu José a Raíssa, enquanto saíam de quadra. – Foi só um jogo.


Raíssa olhou com ódio para Henrique.

- Está tudo bem – e encostou a cabeça no ombro de José.

Agora foi Patrícia quem não quis olhar.

CENA 5

A coisa estava feia para Carlos e Patrícia. Em poucos minutos o placar já marcava 5 a 0 contra, e não havia expectativa de melhora.
Henrique, todo cheio, preparava-se para novo saque. Carlos posicionou-se no fundo da quadra e, ao passar por Patrícia, orientou:


- Eu vou tentar defender. Se eu conseguir, manda na diagonal pra mim.

Ela fez sinal de OK.
Carlos estava certo de que o saque seria nele, como nas outras vezes. Porém, percebendo o acerto, Henrique mudou e mandou a bola em cima da Patrícia.


- Ah, não!

A menina, surpreendida, teve de armar a manchete do jeito que deu, e só pôde rifar a bola. Carlos, num ímpeto, voou do meio da quadra e largou a mão dali mesmo.
A bola viajou pelo ar, passou pela rede raspando e atingiu em cheio o rosto de Henrique:


- Aaai!!!

Ele caiu. Fez aquela cena, rolou de um lado pro outro, como se tivesse levado um tiro. As meninas foram socorrê-los. Carlos paralisou no meio da quadra.

- O que deu em você? – gritou Henrique, com raiva.
- Foi um acidente!
- Quase arrancou a minha cabeça fora!


Amanda ajudou-o a se levantar. Raíssa e Patrícia recolheram a rede e José pegou a bola. Todos foram embora.

- Foi sem querer – ainda insistiu Carlos, em vão.
Ficou ali sozinho.


CENA 6

O vento gelado entrou pela janela, balançando a cortina ruidosamente. Lá fora, naquela concavidade formada pelas montanhas, a lua já ia alta, lutando para manter-se acesa entre as nuvens, que aos poucos dominavam o céu.
Bem à sua frente, pequenas sombras negras passeavam entre a folhagem enquanto seus ouvidos captavam os ruídos dos insetos.
Tudo bem cinzento, como seu estado de espírito, ponderou Carlos.


- Eu não consigo entender.
Por quê? Primeiro aquela cena toda na festa, depois o “quase beijo” e agora essa indiferença toda. E ainda se jogou nos braços do seu melhor amigo!


O choro veio com tudo.

- Eu não merecia isso!

Pra que, então, brincar com os seus sentimentos? Por que ela mandou aquelas cartas?

- Tem alguém de graça com a sua cara – repetiu, pra si mesmo, as palavras de Henrique.
É, tinha razão. Amanda só queria se divertir às suas custas. Quando que uma garota como ela, linda e desinibida, se interessaria por Carlos?
Devia estar rindo agora.


- Desgraçada... você vai me pagar...

[tensão no ar]

sábado, 5 de abril de 2008

4º Capítulo



CAPÍTULO 4
CENA 1

A estranha, pega em flagrante, não conseguiu pronunciar uma palavra. Apenas se apressou em recuar pela calçada e aí, atingida pela luz do poste, se revelou:
Era Helena, colega de Deise.

- Que susto você me deu! – repreendeu Carlos, não escondendo a sua decepção. – O que faz aí?
- Vim falar com a sua irmã. Ela se encontra?
- Deise! – chamou o rapaz e, em seguida, para Helena: - Faz um favor, vê se tem carta pra mim na caixinha.
Helena achou graça:
- O correio não passa de noite, Carlos.
- Sério, Lena... é que eu não tive tempo de olhar durante o dia.
Dando um suspiro, a menina obedeceu:
- Não é que tem carta mesmo? – disse, acrescentando: - E não vem com o nome de quem mandou.

Ao ouvir essa última frase, Carlos arrancou a correspondência das mãos dela e disparou casa adentro, quase atropelando Deise, que saía pela porta.

- Nossa, o que deu nele? – quis saber a irmã, surpresa.
- Eu não fiz nada! – apressou-se Helena, bem ao seu estilo.

CENA 2

O envelope era parecido com o anterior. Carlos o abriu e retirou um papel tendo uma mensagem diferente, porém construída da mesma forma que a outra:

“LOVE ME DO YOU KNOW I LOVE YOU”

Era a confirmação que esperava!

- Me ame, você sabe que eu te amo – traduziu o rapaz, trêmulo. Só podia ter sido a Amanda, sem dúvida. Aquela mensagem era a cara dela! Carlos não cabia em si de tanta alegria. Sentiu vontade de pular, gritar... de ir na casa da menina.
Olhou para o relógio: dez horas.

Não, muito tarde. Melhor se conter. Mas era preciso arrumar uma forma de extravasar.
O violão estava ali do lado. Pegou-o. Esse era o momento mais feliz da sua vida. Pela primeira vez, sentia ser importante pra alguém, sentia-se amado. E isso tinha que ser brindado com música:

Essa noite eu sou
O homem mais feliz
Que o amor já fez...

- Seu irmão está desafinando lá em cima – comentou Helena, do portão, não contendo o riso.
- Não sei o que é pior: ouvi-lo cantar ou ouvi-lo tocar.
E riram mais ainda.

CENA 3

Lá na frente, o professor repassava detalhes sobre o trabalho: grupos de, no máximo, quatro pessoas, cada um teria que apresentar uma parte específica e explicá-la para a turma e, além disso, entregariam uma cópia escrita a cada aluno.

- No computador ou na máquina – completou.
O sinal tocou meio-dia. Nossa, as horas passaram rápido!
- Hoje teve aula do quê? – perguntou Carlos a si mesmo, dando uma olhada no caderno: história. Estivera o tempo todo com a cabeça no mundo da lua. Quando a gente se apaixona a gente fica assim, meio besta.
- Será que eu consigo?

Durante o intervalo ele bem que tentou, mas não conseguiu falar com Amanda. Ela estava bem animada no meio das colegas, não queria incomodar. Mas agora, a mocinha estava lá, no pátio, sozinha, dando sopa.
Aquela era a hora.
Guardou, então, o material na mochila, criou coragem e deu um passo. Recuou. Olhou as cadeiras, a lata de lixo, o quadro negro... todos pareciam zombar dele:

- Idiota!
- Você não vai conseguir!
- Covarde!

Balançou a cabeça e deu mais um passo. E outro. Seu rosto estava vermelho. Amanda olhou. Carlos tropeçou.
Caiu de cara no chão,

- Carlos! – chamou a menina, indo socorrer o amigo, enquanto os outros alunos faziam aquele coro de risadas.
- Você está bem?

O menino sacudiu o pó da camisa e tentou manter a pose:

- Sim, claro, não foi nada.
E os alunos rindo ao fundo.
- Tome mais cuidado da próxima vez – disse Amanda, acenando enquanto se afastava.
- Espere!
Ela parou.
- O que houve?
- Preciso falar com você.
- Então fala.
O menino hesitou.
- Estou vendo que não é importante – atalhou Amanda, com rispidez. – Olha, depois a gente se fala, tá legal?
E virou as costas.
-Nossa, pensou Carlos, o que foi que deu nela? Nem de longe lembrava a garota atenciosa do dia anterior. Aquela que quase lhe deu um beijo...

Decepcionado, ficou ali, no meio do pátio, observando sua admiradora secreta misturar-se à multidão de alunos que deixava o colégio.

CENA 4

A cena agora mostra Carlos no sofá, deitado, repassando os momentos que esteve com Amanda. Procurava um motivo para ela o tratar assim, tão friamente.

- O que foi que eu fiz?
Lembrou do “quase beijo”:
- Ou o que eu não fiz?
O telefone tocou. O coração saltou no peito.
- Alô? – voz embargada.
- Oi, Carlos, tudo bem?
- Quem está na linha?
- Sou eu, Helena.
- Ah, sim... – tom desapontado. – A Deise não está.
- Eu sei.
- Então...
- Ela me disse que você estaria em casa – antecipou-se ela – E eu queria te pedir um favor.
- Manda.
- Você pode gravar um filme hoje na Sessão da Tarde?
- Que filme vai passar?
- Sei lá. Mas sempre tem um bom. Segunda-feira passou Admiradora Secreta. Você viu?
Carlos se calou.
- Alô?
- Estou aqui, Lena.
- Então, você viu? Aquela história das cartas rolando de mão em mão, aquela confusão... ai, eu adorei!
- É, foi bem engraçado mesmo – desconforto na voz.
- Por falar em cartas... – Helena deu uma pausa: - Que carta era aquela que você recebeu ontem?
- Carta? – tentou disfarçar ele.

Ela o lembrou:

- A que eu te entreguei ontem.
- Ah, tá...
- Você parecia tão contente!
- Não era nada – cortou Carlos, dando fim à conversa: - Pode deixar que eu gravo o vídeo pra você.

E desligou.

- Eu, hein, menina enxerida – resmungou pra si mesmo, ao pôr o fone no gancho. Em seguida, apanhou a chave e saiu. Hora de um compromisso muito importante.

sábado, 29 de março de 2008

3º Capítulo


CAPÍTULO 3


CENA 1


O grupo subiu o viaduto e desceu no outro lado da cidade. Cortaram a direita e pegaram uma rua larga, onde podiam pedalar lado a lado. Raíssa e Henrique estavam no maior clima, um olhando pro outro, o tempo todo.
Amanda diminuiu o ritmo e ficou pra trás.


- Ei, o que houve? – perguntou Carlos, freando.
A menina desmontou e apertou o pneu da bicicleta:
- Tá meio murcho. Vou ver se tem um lugar pra encher... não quer ir comigo?
Carlos coçou o queixo, Henrique apoiou:
- Vai com ela, seja cavalheiro. Nós esperamos aqui.
- Nós? – protestou Raíssa, virando a sua bicicleta. – Vocês dois esperam aqui, eu irei com a minha amiga.
Amanda deu aquela olhada:
- O Carlos – e frisou bem o nome – vem comigo. Já pensou duas moças sozinhas numa borracharia?
Henrique concordou logo:
- Ela tem razão. Carlos a protegerá – disse em tom zombeteiro.
Raíssa ainda olhou para a amiga mais uma vez, e entendeu:
- Ah, sim claro... ok então.
E afastou-se com Henrique.


CENA 2


Carlos e Amanda pedalavam em silêncio. Não estavam acostumados um com o outro, por isso, cada um procurava uma forma de começar o diálogo. Depois de se analisarem por um tempo, a garota quebrou o gelo:
- Viu só o que eu te disse?
- Sobre o quê?
- Raíssa e Henrique. Eu torço para que os dois dêem certo, só pra quebrar a cara do José!
O outro riu:
- Você não vai mesmo com a cara do seu irmão, né?
- Não é isso – esquivou-se ela – é que as atitudes dele me revoltam, sabe? Não é legal brincar com os sentimentos dos outros.
- O José não gosta da Raíssa?
- Gosta nada! Só quer tirar uma “casquinha”, que nem ele fez com a Pat.
Carlos se doeu. Amanda percebeu que falara demais. Mudou de assunto:
- Falando nela, e aí? Rolou alguma coisa depois da festa?
- Não, também, depois daquele micão – referiu-se ao desastre com os salgadinhos.
A garota riu de se acabar. Isso serviu para deixá-los mais a vontade.
- Me fale de você, Amanda.
Ela foi pega de surpresa:
- O que você quer saber sobre mim?
- Sei lá... o que você quiser contar.
A menina se aprumou e começou, como se desse um depoimento:
- Amanda, doze anos, alta, magra, loira dos olhos azuis...
- Isso é mentira!
Ela fingiu-se envergonhada e cobriu o rosto com as mãos. Prosseguiu:
- Moro com meus pais e com o safado do meu irmão. Estudo no seu colégio, pra dizer a verdade, na sua sala...
- Isso eu sei!
- Vai ficar me interrompendo?
- Não, continue.
- Bem, minha melhor amiga é a Raíssa, mas também gosto muito da Patrícia e de você... – calou-se por um instante.
Carlos arregalou os olhos. Amanda respirou fundo. Concluiu:
- Também sou muito boa em inglês.
Os olhos de Carlos quase saltaram das órbitas:
- O que foi que disse?
Ela achou graça:
- Sou metida, né?
- Você escreve em inglês? – ele lembrou da carta.
- Sim.
Carlos freou, tentando conter a excitação. Calma, disse pra si mesmo. Isso não quer dizer nada.
- Está tudo bem? – quis saber a menina.
Ele atalhou:
- Parece que o seu pneu ta ok.
Amanda riu, encabulada:
- É, né? Que coisa, parecia vazio.
Os dois se aproximaram. Ficaram a menos de um palmo, olhares fixos, quase hipnóticos. Seus lábios se atraíram como um ímã, uma atração irresistível.
Mas Carlos resistiu.
- Desculpe. É uma pena você gostar da Patrícia.


CENA 3


E agora, quem mandou a carta?
O fato de Patrícia querer conhecê-lo e dançar com ele não faz dela uma admiradora em potencial, pensava o menino. Já Amanda, por suas atitudes, dava toda a pinta de estar interessada nele.
Será?
Sorrindo meio besta, Carlos abriu o portão e deu um salto: Deise lia um papel na varanda, um bem familiar:
- Essa não!
A irmã, ao vê-lo, abriu aquele sorriso de deboche:
- Grande Cacá! Arrasando corações!
- Me dá isso, não leia!
- Já li. Eu te amo oito dias por semana – traduziu ela. – Que bonito.
O irmão espiou pelo basculante, apavorado. Ufa! Sua mãe não estava por perto.
- Deise, na moral... não fala disso pra ninguém!
- Claro que não vou falar! Mas me conta: quem mandou?
- Sei lá, está anônimo.
- Mas você não desconfia de ninguém?
- Não – mentiu.
Deise entregou-lhe o papel:
- Com certeza é uma garota bem caprichosa... e está apaixonada por você – frisou bem o “apaixonada”.
- Imagina só o trabalhão que deu cortar todas essas letrinhas aí! Não seria mais fácil chegar pra mim e me dizer?
Deise retrucou:
- Talvez a menina assista muita televisão – e deixou-o.


CENA 4


Naquela noite, Carlos foi pra cama mais cedo, mas não conseguiu dormir. A presença de Amanda era muito forte. De hora em hora repassava tudo o que ela falou, procurando pistas que a “incriminassem”. E apesar de não encontrar provas concretas, ele se sentia inclinado a culpá-la. Ele queria acreditar que Amanda era a sua “admiradora secreta”.
Cansado de rolar de um lado para o outro, o menino resolveu tomar um ar fresco no quintal. Desceu as escadas preguiçosamente, pôs a mão na maçaneta e abriu a porta.
Seu coração disparou:
Meio escondida pela penumbra, uma menina estava de pé junto ao muro, recostada sobre a caixa do correio.
- Quem é você?


[música de suspense]

sábado, 22 de março de 2008

2º capítulo


ADMIRADORA SECRETA- CAPÍTULO 2


CENA 1


No dia seguinte, o assunto da hora era a festa. O fato mais comentado foi a experiência de Carlos como garçom. Logo depois de dançar com Patrícia, o garoto, pra agradar, foi ajudá-la na cozinha. Como não tinha ninguém pra servir, escalaram ele na função.
Pra quê... pra começar, Carlos não sabia equilibrar os copos na bandeja. Parecia que estava andando numa corda bamba. Patrícia, pra evitar o desperdício de bebida, pediu a ele que servisse salgadinhos.
Salgadinhos são mais leves, mais fáceis de carregar. Mas quando Carlos passou pela “pista de dança”, meu Deus! Uma moça, não se dando conta de seus movimentos, virou-se bruscamente e... pimba! Os petiscos foram pro chão. Uma outra estabanada, que se requebrava atrás, escorregou numa coxinha, caiu em cima da primeira e foi aquele efeito dominó: todo mundo caindo em cima de todo mundo, um grita-grita, um pandemônio. Raíssa nem pôde ir a escola, de tão cansada que ficou, pois teve de limpar tudo antes de dormir.


CENA 2


- Que mico hen? – comentou Henrique.
- A culpa não foi minha – defendeu-se Carlos, vermelho.
- Eu sei que não... mas foi engraçado.
E deu uma risadinha. Carlos olhou para ele, sério.
- Desculpa.
Os dois prosseguiram. Estavam andando pela rua. A aula já terminara e eles andavam à toa. Passaram pela casa da Raíssa.
- Eu não tiro essa menina da cabeça – desabafou Henrique.
- Ué, e isso é ruim?
- Sei lá. Não estou acostumado a gostar de ninguém, meu negócio é só pegar.
- Que horror!
- Pois é. E agora, o que eu faço?
Carlos lembrou-se da conversa com Amanda.
- Arrisca dizer isso pra ela.
- Tá louco? E se eu tomar um fora?
- Faz parte.
Henrique relutou um pouco. A dupla parou em frente ao portão e tomou um susto: a dona da casa apareceu, sorridente:
- Olá, rapazes!
Carlos acenou, Henrique olhou pro chão.
- O que fazem aqui?
- O Henrique tem uma coisa pra... – e foi interrompido.
Raíssa olhou pra ele:
- O Henrique tem... ???
- Quieto, Carlos. Ela não pode saber!
- O que eu não posso saber? – inquiriu a menina, curiosa.
Carlos ficou sem palavras. Henrique o puxou pelo braço e os dois seguiram em frente, mas Raíssa foi atrás:
- Agora vocês vão me falar! O que está acontecendo?
- É a Jenifer! – disse Henrique, sem pensar.
Raíssa o encarou:
- O que tem ela?
Carlos se intrometeu:
- Ele só fala nela agora, o tempo todo – e recebeu um olhar de desaprovação do amigo.
Raíssa suspirou, aliviada:
- Pensei que fosse algo sério. Vou dizer uma coisa pra você: a Jenifer é amarradona na sua. Dá uma chance pra ela.
Henrique ficou desconcertado, mas não perdeu a pose:
- Acho que vou dar mesmo. Ela é muito manera e tem o maior corpão!
- Isso aí, vai lá – incentivou a garota, impassível. – Quanto a mim, por favor, me desejem boa sorte.
E entrou.
- Por quê? – perguntaram os rapazes ao mesmo tempo. Raíssa saiu montada em sua bicicleta e não respondeu. Ria por dentro.
- Bobinho, tentando me botar ciúme – disse pra si mesma.


CENA 3


Raíssa desceu a rua. Carlos e Henrique se entreolharam, com um ponto de interrogação bem grande entre eles.
- Seu idiota, olha só o que você fez! – Henrique estava furioso.
- Ninguém mandou você botar a Jenifer na história.
- Podia ter ficado quieto!
Carlos olhou para o amigo, magoado. Henrique era assim: quando as coisas não saíam do jeito que queria, ia logo culpando as pessoas. Mas relevou: sabia que ele estava apenas decepcionado.
- Olha, eu não vou ligar porque sei que não está falando por mal.
Henrique baixou a cabeça.
- Desculpa.
Carlos fez um gesto com a mão e seguiu em direção à sua casa. Henrique correu e o alcançou, com os olhos arregalados:
- Espere! Não podemos deixá-la escapar assim!
- Ela é problema seu.
- Vamos atrás dela!
De onde estavam ainda viam Raíssa lá longe, dobrando a esquina, passando por uma praça.
- Não vou me prestar a esse papel.
- Por favor – implorou Henrique.
Os dois já estavam no portão de Carlos.
- Tá, tá... entra, pega a bicicleta da Deise.
O amigo lhe deu um beijo na testa e tomou um empurrão, seguido de uma gargalhada sonora. Por isso os dois eram tão unidos.


CENA 4


Raíssa guiou para um portão alto e verde, ao lado de um depósito de gás. Parou e chamou.
De longe, os dois amigos observaram uma senhora cumprimentá-la gentilmente e convidá-la a entrar.
- Quem mora aí, Henrique?
O garoto fez uma careta:
- José.
- José, irmão da Amanda? – e lembrou-se mais uma vez da conversa da noite anterior.
- É... infelizmente.
Claro que Henrique sabia do interesse do rival pela “sua” menina.
- Calma, cara... talvez a Raíssa tenha vindo só se encontrar com a Amanda.
- Isso é o que vamos descobrir!
E rumou para o portão verde e alto.
- Volta aqui, moleque!
Henrique não deu ouvidos: abaixou-se diante do portão e se pôs a espiar por um buraquinho que tinha ali.
- Não dá pra ver nada – resmungou. Olhou pra trás, esperando que Carlos dissesse alguma coisa: viu a cara vermelha do amigo.
- Ué, o que houve?
Sentiu dois dedos delicados em seu ombro.
- Perdeu alguma coisa? – uma voz feminina, cheia de sarcasmo.
Henrique se ergueu imediatamente.
- Oi, oi... Amanda.
Raíssa apareceu logo atrás, segurando o riso:
- Veio atrás de mim, foi?
- Claro que não! Só vim porque o Carlos pediu – e apontou.
- O quê??? – exclamou o outro.
- Ele sugeriu que nós quatro fôssemos dar uma voltinha... não foi??? – frisou bem o “não foi”.
Carlos se aproximou, sem graça;
- É, claro... que tal?
Amanda sorriu:
- Eu topo. Vou encher o pneu da minha bike, já volto.


[música de suspense]


sábado, 15 de março de 2008

1º capítulo


CAPÍTULO 1
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CENA 1


Carlos morava com a mãe e a irmã numa casa pequena afastada do centro. A mãe era professora e Deise, a irmã, seguia seus passos, cursando magistério. Nesta manhã, ambas estavam a caminho da escola. Deise, do portão, gritou para Carlos, que tomava café:
- Tem carta pra você!
O menino achou estranho a correspondência ter chegado tão cedo, mas não esquentou: pegou o seu material e saiu, fechando a porta atrás de si. Deise o esperava no portão com o envelope. Na calçada, a mãe a esperava impaciente:
- Deixa isso aí e vamos!
A filha obedeceu, acenou brevemente e sumiu rua acima.

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CENA 2


Carlos apanhou então o envelope. Seu nome estava escrito com letras recortadas e coladas, provavelmente tiradas de um jornal. No remetente, não havia nada.
- Que estranho!
Intrigado, rasgou o lado do envelope e retirou dali um papel, onde se podia ler:
EIGHT DAYS A WEEK I LOVE YOU
O curioso é que a mensagem também foi construída com letras cuidadosamente
recortadas e coladas, de modo a não se dar nenhuma pista de quem a tenha mandado.
- Quem foi o palhaço que mandou isso pra mim?
Certo de que se tratava de uma brincadeira, colocou o envelope no bolso e tomou a condução.

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CENA 3


No caminho para o colégio, porém, uma pergunta foi martelando a sua cabeça: e se fosse verdade? Passara um filme no dia anterior onde uma garota mandava cartas anônimas para um rapaz, por não ter coragem de se declarar. Existiria alguém interessado em Carlos, assim como no filme?
Sem querer, sua mente se voltou para Patrícia. Ela era da sua turma e sentava lá atrás, perto da Amanda e da Raíssa. Volta e meia Patrícia o olhava, como se quisesse falar com ele. Podia ser ela, por que não?
Animado com a perspectiva, Carlos saltou do ônibus disposto a tirar a história a limpo.

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CENA 4


- Tem alguém de graça com a sua cara – falou Henrique.
Se tem ou não, descobriremos, pensou o menino. E lá foi ele atrás da autora da carta.
Patrícia estava na cantina, conversando com Amanda.
- Vamos, Carlos – falou consigo mesmo.
Era uma situação inteiramente nova. Ele nunca namorara em seus treze anos de vida e ninguém nunca lhe havia chamado a atenção. Mas como a mocinha demonstrara interesse, por que não lhe dar uma chance?
- Oi – o cumprimento saiu meio engasgado.
Patrícia não o reconheceu de imediato. Ajeitou os óculos e não escondeu a surpresa:
- Nossa! É você mesmo?
- Sim.
- O que faz aqui?
- Nada, vim só ver você.
O menino corou na hora. As palavras saíram de sua boca sem que percebesse. Tratou de se corrigir:
- Quer dizer, eu e o Henrique estamos precisando de mais uma pessoa pro trabalho... você está sem grupo?
- Pior que eu já combinei de fazer com a Raíssa e a Amanda – e olhou para a amiga, que abriu mão:
- Faz com eles. A Jenifer está sem grupo, ela vem pro nosso.
Patrícia pareceu gostar da idéia
- Está certo. Estou com vocês.
- Ótimo! Combinamos depois da aula.
E sorrindo de orelha a orelha, Carlos seguiu para a sala. Parecia estar no caminho certo.

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CENA 5


Vemos agora Carlos no portão de casa e uma garota se aproximando. Era Raíssa. Raíssa morava ali perto, algumas quadras à frente, mas os dois só se conheciam de vista. Carlos é tímido e, apesar de vê-la passar pra lá e pra cá, nunca tivera coragem de falar com ela.
- Oi, vou dar uma festa lá em casa hoje à noite – foi logo falando a garota – e gostaria que você fosse.
Surpreso, Carlos ficou quieto. Raíssa completou:
- Vai ser às oito. Espero você.
E foi embora. Nem deu margem a uma resposta negativa.

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CENA 6


À noite a festa estava rolando. Na sala, Raíssa afastou os sofás e a estante e improvisou uma pista de dança. Na falta daquelas luzes comuns em discotecas, ela pendurou pela parede pisca-piscas de natal que, embora não surtissem o efeito desejado, arrancou boas risadas.
Os convidados chegaram e tomaram conta do pequeno cômodo. No único espaço que sobrou livre – o vão da escada, Henrique assumiu o som e precisou vez após vez avisar:
- Cuidado pra não esbarrar no som!
Nem precisa dizer que não adiantou nada.
Carlos sentou-se num degrau da escada. Não se sentia à vontade observando toda aquela gente se divertindo. Na verdade, estava com raiva de si mesmo, por não saber se enturmar.
Poucas vezes Carlos conseguiu conversar com alguém, tirando Henrique, que era seu melhor amigo. Geralmente ele iniciava a conversa com um "oi", mas daí não sabia prosseguir, então a pessoa se afastava e ele se frustrava. Com isso acontecendo toda hora, o menino foi perdendo a confiança e, sem querer, se isolou.
Passou então a sentar nas primeiras cadeiras e a prestar atenção até nas aulas mais sacais. Virou o melhor aluno da turma. Com isso os outros alunos passaram a notá-lo e a se aproximar, geralmente nas épocas de prova. Mas Carlos continuava na dele. Isso o tornou antipático e lhe deu o rótulo de cdf.
- Eu não ligo – costumava dizer.
Mas ligava. Tinha noites que, ao se deitar, não agüentava e chorava. Nessas horas, gostava de dedilhar um violão velho que fora do seu pai: ia pro quintal, botava a cadeira lá e tocava umas músicas ruins à beça, mas que significava muito pra ele, por conter todos os seus sentimentos.
Atormentado por esses pensamentos, Carlos resolveu sair pra tomar um ar.

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CENA 7


Uma figura feminina o seguiu, mas hesitante, deteve-se na porta.
- Patrícia?
- Amanda – respondeu a menina, completando: - Você gosta mesmo dela.
- Dela quem? – o tom de voz de Carlos o traiu. Não sabia fingir.
Ele estava sentado no chão, encostado na parede, um pouco abaixo da janela. Amanda sentou-se ao seu lado.
- Você apareceu no momento certo, sabia?
O menino fez que não, com a cabeça.
- Patrícia sempre gostou do José, o meu irmão. Mas ele é um galinha. Fica enganando a garota: fala que gosta dela mas, pelas costas, vive dando em cima da Raíssa. Mal sabe ele que a Raíssa só tem olhos pro Henrique.
- Que modo de falar do seu irmão!
Ela não ligou:
- Bem, aí surgiu você. Desde o começo do ano que ela está querendo te conhecer, mas sabe... o seu jeito caladão inibiu a menina.
- Pode dizer a ela que eu não mordo – sorriu Carlos. Parecia que suas suspeitas tinham fundamento. Perguntou, mais por perguntar: - Onde é que eu entro nessa história?
Amanda se calou. Levantou-se e olhou pela janela as pessoas dançarem. Debruçou-se ali. Carlos postou-se ali também e Amanda virou o rosto.
- Ei, o que houve?
- Acho que eu devia ter ficado quieta.
E se afastou, deixando no ar um tom de arrependimento. Por quê? Sem entender, Carlos a procurou no meio das pessoas. Encontrou-a falando com o Henrique.
Em segundos as luzes se apagaram e os primeiros acordes de uma música romântica ressoaram pela sala.
Logo pares se formaram.
- Vai lá, Carlos – voltou Amanda – ela quer dançar com você.
E apontou Patrícia, sozinha.