CENA 1
No dia seguinte, o assunto da hora era a festa. O fato mais comentado foi a experiência de Carlos como garçom. Logo depois de dançar com Patrícia, o garoto, pra agradar, foi ajudá-la na cozinha. Como não tinha ninguém pra servir, escalaram ele na função.
Pra quê... pra começar, Carlos não sabia equilibrar os copos na bandeja. Parecia que estava andando numa corda bamba. Patrícia, pra evitar o desperdício de bebida, pediu a ele que servisse salgadinhos.
Salgadinhos são mais leves, mais fáceis de carregar. Mas quando Carlos passou pela “pista de dança”, meu Deus! Uma moça, não se dando conta de seus movimentos, virou-se bruscamente e... pimba! Os petiscos foram pro chão. Uma outra estabanada, que se requebrava atrás, escorregou numa coxinha, caiu em cima da primeira e foi aquele efeito dominó: todo mundo caindo em cima de todo mundo, um grita-grita, um pandemônio. Raíssa nem pôde ir a escola, de tão cansada que ficou, pois teve de limpar tudo antes de dormir.
CENA 2
- Que mico hen? – comentou Henrique.
- A culpa não foi minha – defendeu-se Carlos, vermelho.
- Eu sei que não... mas foi engraçado.
E deu uma risadinha. Carlos olhou para ele, sério.
- Desculpa.
Os dois prosseguiram. Estavam andando pela rua. A aula já terminara e eles andavam à toa. Passaram pela casa da Raíssa.
- Eu não tiro essa menina da cabeça – desabafou Henrique.
- Ué, e isso é ruim?
- Sei lá. Não estou acostumado a gostar de ninguém, meu negócio é só pegar.
- Que horror!
- Pois é. E agora, o que eu faço?
Carlos lembrou-se da conversa com Amanda.
- Arrisca dizer isso pra ela.
- Tá louco? E se eu tomar um fora?
- Faz parte.
Henrique relutou um pouco. A dupla parou em frente ao portão e tomou um susto: a dona da casa apareceu, sorridente:
- Olá, rapazes!
Carlos acenou, Henrique olhou pro chão.
- O que fazem aqui?
- O Henrique tem uma coisa pra... – e foi interrompido.
Raíssa olhou pra ele:
- O Henrique tem... ???
- Quieto, Carlos. Ela não pode saber!
- O que eu não posso saber? – inquiriu a menina, curiosa.
Carlos ficou sem palavras. Henrique o puxou pelo braço e os dois seguiram em frente, mas Raíssa foi atrás:
- Agora vocês vão me falar! O que está acontecendo?
- É a Jenifer! – disse Henrique, sem pensar.
Raíssa o encarou:
- O que tem ela?
Carlos se intrometeu:
- Ele só fala nela agora, o tempo todo – e recebeu um olhar de desaprovação do amigo.
Raíssa suspirou, aliviada:
- Pensei que fosse algo sério. Vou dizer uma coisa pra você: a Jenifer é amarradona na sua. Dá uma chance pra ela.
Henrique ficou desconcertado, mas não perdeu a pose:
- Acho que vou dar mesmo. Ela é muito manera e tem o maior corpão!
- Isso aí, vai lá – incentivou a garota, impassível. – Quanto a mim, por favor, me desejem boa sorte.
E entrou.
- Por quê? – perguntaram os rapazes ao mesmo tempo. Raíssa saiu montada em sua bicicleta e não respondeu. Ria por dentro.
- Bobinho, tentando me botar ciúme – disse pra si mesma.
CENA 3
Raíssa desceu a rua. Carlos e Henrique se entreolharam, com um ponto de interrogação bem grande entre eles.
- Seu idiota, olha só o que você fez! – Henrique estava furioso.
- Ninguém mandou você botar a Jenifer na história.
- Podia ter ficado quieto!
Carlos olhou para o amigo, magoado. Henrique era assim: quando as coisas não saíam do jeito que queria, ia logo culpando as pessoas. Mas relevou: sabia que ele estava apenas decepcionado.
- Olha, eu não vou ligar porque sei que não está falando por mal.
Henrique baixou a cabeça.
- Desculpa.
Carlos fez um gesto com a mão e seguiu em direção à sua casa. Henrique correu e o alcançou, com os olhos arregalados:
- Espere! Não podemos deixá-la escapar assim!
- Ela é problema seu.
- Vamos atrás dela!
De onde estavam ainda viam Raíssa lá longe, dobrando a esquina, passando por uma praça.
- Não vou me prestar a esse papel.
- Por favor – implorou Henrique.
Os dois já estavam no portão de Carlos.
- Tá, tá... entra, pega a bicicleta da Deise.
O amigo lhe deu um beijo na testa e tomou um empurrão, seguido de uma gargalhada sonora. Por isso os dois eram tão unidos.
CENA 4
Raíssa guiou para um portão alto e verde, ao lado de um depósito de gás. Parou e chamou.
De longe, os dois amigos observaram uma senhora cumprimentá-la gentilmente e convidá-la a entrar.
- Quem mora aí, Henrique?
O garoto fez uma careta:
- José.
- José, irmão da Amanda? – e lembrou-se mais uma vez da conversa da noite anterior.
- É... infelizmente.
Claro que Henrique sabia do interesse do rival pela “sua” menina.
- Calma, cara... talvez a Raíssa tenha vindo só se encontrar com a Amanda.
- Isso é o que vamos descobrir!
E rumou para o portão verde e alto.
- Volta aqui, moleque!
Henrique não deu ouvidos: abaixou-se diante do portão e se pôs a espiar por um buraquinho que tinha ali.
- Não dá pra ver nada – resmungou. Olhou pra trás, esperando que Carlos dissesse alguma coisa: viu a cara vermelha do amigo.
- Ué, o que houve?
Sentiu dois dedos delicados em seu ombro.
- Perdeu alguma coisa? – uma voz feminina, cheia de sarcasmo.
Henrique se ergueu imediatamente.
- Oi, oi... Amanda.
Raíssa apareceu logo atrás, segurando o riso:
- Veio atrás de mim, foi?
- Claro que não! Só vim porque o Carlos pediu – e apontou.
- O quê??? – exclamou o outro.
- Ele sugeriu que nós quatro fôssemos dar uma voltinha... não foi??? – frisou bem o “não foi”.
Carlos se aproximou, sem graça;
- É, claro... que tal?
Amanda sorriu:
- Eu topo. Vou encher o pneu da minha bike, já volto.
[música de suspense]


Um comentário:
Tá muito show a micro!!!
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