
CENA 1
O grupo subiu o viaduto e desceu no outro lado da cidade. Cortaram a direita e pegaram uma rua larga, onde podiam pedalar lado a lado. Raíssa e Henrique estavam no maior clima, um olhando pro outro, o tempo todo.
Amanda diminuiu o ritmo e ficou pra trás.
- Ei, o que houve? – perguntou Carlos, freando.
A menina desmontou e apertou o pneu da bicicleta:
- Tá meio murcho. Vou ver se tem um lugar pra encher... não quer ir comigo?
Carlos coçou o queixo, Henrique apoiou:
- Vai com ela, seja cavalheiro. Nós esperamos aqui.
- Nós? – protestou Raíssa, virando a sua bicicleta. – Vocês dois esperam aqui, eu irei com a minha amiga.
Amanda deu aquela olhada:
- O Carlos – e frisou bem o nome – vem comigo. Já pensou duas moças sozinhas numa borracharia?
Henrique concordou logo:
- Ela tem razão. Carlos a protegerá – disse em tom zombeteiro.
Raíssa ainda olhou para a amiga mais uma vez, e entendeu:
- Ah, sim claro... ok então.
E afastou-se com Henrique.
CENA 2
Carlos e Amanda pedalavam em silêncio. Não estavam acostumados um com o outro, por isso, cada um procurava uma forma de começar o diálogo. Depois de se analisarem por um tempo, a garota quebrou o gelo:
- Viu só o que eu te disse?
- Sobre o quê?
- Raíssa e Henrique. Eu torço para que os dois dêem certo, só pra quebrar a cara do José!
O outro riu:
- Você não vai mesmo com a cara do seu irmão, né?
- Não é isso – esquivou-se ela – é que as atitudes dele me revoltam, sabe? Não é legal brincar com os sentimentos dos outros.
- O José não gosta da Raíssa?
- Gosta nada! Só quer tirar uma “casquinha”, que nem ele fez com a Pat.
Carlos se doeu. Amanda percebeu que falara demais. Mudou de assunto:
- Falando nela, e aí? Rolou alguma coisa depois da festa?
- Não, também, depois daquele micão – referiu-se ao desastre com os salgadinhos.
A garota riu de se acabar. Isso serviu para deixá-los mais a vontade.
- Me fale de você, Amanda.
Ela foi pega de surpresa:
- O que você quer saber sobre mim?
- Sei lá... o que você quiser contar.
A menina se aprumou e começou, como se desse um depoimento:
- Amanda, doze anos, alta, magra, loira dos olhos azuis...
- Isso é mentira!
Ela fingiu-se envergonhada e cobriu o rosto com as mãos. Prosseguiu:
- Moro com meus pais e com o safado do meu irmão. Estudo no seu colégio, pra dizer a verdade, na sua sala...
- Isso eu sei!
- Vai ficar me interrompendo?
- Não, continue.
- Bem, minha melhor amiga é a Raíssa, mas também gosto muito da Patrícia e de você... – calou-se por um instante.
Carlos arregalou os olhos. Amanda respirou fundo. Concluiu:
- Também sou muito boa em inglês.
Os olhos de Carlos quase saltaram das órbitas:
- O que foi que disse?
Ela achou graça:
- Sou metida, né?
- Você escreve em inglês? – ele lembrou da carta.
- Sim.
Carlos freou, tentando conter a excitação. Calma, disse pra si mesmo. Isso não quer dizer nada.
- Está tudo bem? – quis saber a menina.
Ele atalhou:
- Parece que o seu pneu ta ok.
Amanda riu, encabulada:
- É, né? Que coisa, parecia vazio.
Os dois se aproximaram. Ficaram a menos de um palmo, olhares fixos, quase hipnóticos. Seus lábios se atraíram como um ímã, uma atração irresistível.
Mas Carlos resistiu.
- Desculpe. É uma pena você gostar da Patrícia.
CENA 3
E agora, quem mandou a carta?
O fato de Patrícia querer conhecê-lo e dançar com ele não faz dela uma admiradora em potencial, pensava o menino. Já Amanda, por suas atitudes, dava toda a pinta de estar interessada nele.
Será?
Sorrindo meio besta, Carlos abriu o portão e deu um salto: Deise lia um papel na varanda, um bem familiar:
- Essa não!
A irmã, ao vê-lo, abriu aquele sorriso de deboche:
- Grande Cacá! Arrasando corações!
- Me dá isso, não leia!
- Já li. Eu te amo oito dias por semana – traduziu ela. – Que bonito.
O irmão espiou pelo basculante, apavorado. Ufa! Sua mãe não estava por perto.
- Deise, na moral... não fala disso pra ninguém!
- Claro que não vou falar! Mas me conta: quem mandou?
- Sei lá, está anônimo.
- Mas você não desconfia de ninguém?
- Não – mentiu.
Deise entregou-lhe o papel:
- Com certeza é uma garota bem caprichosa... e está apaixonada por você – frisou bem o “apaixonada”.
- Imagina só o trabalhão que deu cortar todas essas letrinhas aí! Não seria mais fácil chegar pra mim e me dizer?
Deise retrucou:
- Talvez a menina assista muita televisão – e deixou-o.
CENA 4
Naquela noite, Carlos foi pra cama mais cedo, mas não conseguiu dormir. A presença de Amanda era muito forte. De hora em hora repassava tudo o que ela falou, procurando pistas que a “incriminassem”. E apesar de não encontrar provas concretas, ele se sentia inclinado a culpá-la. Ele queria acreditar que Amanda era a sua “admiradora secreta”.
Cansado de rolar de um lado para o outro, o menino resolveu tomar um ar fresco no quintal. Desceu as escadas preguiçosamente, pôs a mão na maçaneta e abriu a porta.
Seu coração disparou:
Meio escondida pela penumbra, uma menina estava de pé junto ao muro, recostada sobre a caixa do correio.
- Quem é você?
[música de suspense]

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