CENA 1
E a chuva voltara com gosto. Caía forte, fria. Ventava. Os raios cortavam o céu, seguidos pelo estrondo dos trovões. Quase impossível andar assim. Quanto mais correr.
Mas Carlos não se importava. Molhado dos pés à cabeça, lutando para manter os olhos abertos, ele corria sem direção. A luz não havia voltado ainda. A rua estava imersa na escuridão.
Escorregou de novo. Caiu numa poça d’água. Levantou-se, escorregou mais uma vez. Era difícil manter o equilíbrio.
- Porcaria! Maldita Amanda! Eu pego você! – gritava, quase sem voz.
Começou a tremer. Espirrou. Já pegara chuva de manhã, mais essa agora. Ficaria resfriado.
Um ônibus dobrou a esquina.
- Ah, não! Só faltava essa!
A rua estava alagada. O ônibus veio, levantando aquela água pra todos os lados. Carlos disparou. O motorista percebeu, mas em vez de diminuir, pisou fundo.
- Carlos! Aqui! – gritou alguém.
Uma casa estava de portão aberto. Sem pestanejar, o rapaz pulou lá dentro e se protegeu atrás do muro. O ônibus passou, rugindo, molhando mais ainda a calçada.
- Essa foi quase, não? – disse a mãe de Helena, da porta da sala.
- Nossa, se foi – suspirou Carlos, tomando fôlego.
- O que faz debaixo desse toró? Dançando na chuva?
Dona Selma era sempre brincalhona.
- Não, não – o rapaz não deu explicações.
- Entra, vem. Vou pegar uma toalha pra você.
- Eu preciso ir.
A mulher fez cara de desaprovação:
- Nem pensar. Desse jeito, vai pegar uma “pneu”. Entra, a Leninha acabou de chegar, tá lá em cima tomando banho.
Carlos espirrou de novo. Melhor obedecer.
CENA 2
Carlos se secou e ficou na sala, esperando. Dona Selma pediu desculpas pela bagunça, não tivera tempo de arrumar. Foi procurar uma vela.
A sala estava escura, naturalmente.
- Não precisa se incomodar – disse o rapaz, por educação.
Lá de cima, vinha o barulho do chuveiro e a voz lastimável de Helena, acompanhando uma música que tocava em um rádio de pilha:
- Uuuuh, I need your love...
- Credo – Carlos fez uma careta. – Ainda bem que ela não ganha a vida cantando.
Tropeçou em alguma coisa.
- Que isso?
Abaixou-se: uma tesoura.
- Pessoal descuidado – pensou consigo mesmo. Apanhou o objeto e tentou encontrar uma mesa.
Não dava pra ver nada.
Foi tateando.
Foi tateando.
- Hold me... love me... – empolgava-se Helena.
Carlos esbarrou numa cadeira. Pensou em sentar-se, mas teve a idéia de verificar se não tinha algum prego, ou alfinete. Do jeito que as coisas andavam...
Fez bem: uma caixa de tachinhas aberta bem sobre o assento.
- Vou te contar, viu? – riu mais uma vez.
Estendeu a mão e encontrou a mesa. Pousou a tesoura sobre ela. Estranhou. A superfície era mais macia que o normal. Passou os dedos.
- Um jornal.
Um raio clareou tudo por um instante e Carlos pôde ver: eram vários jornais sobre a mesa, espalhados. E picotados.
- O que significa isso? – o rapaz arregalou os olhos, não acreditando.
Dessa vez, só o rádio cantou:
- Eight days a week... – e um novo raio revelou a “admiradora secreta” de pé, no alto da escada.
CENA 3
- Helena...
Ela o olhava sem reação. Estava mais surpresa do que ele. Não esperava ser descoberta assim, daquele jeito.
- Você o tempo todo – balbuciou Carlos, sem saber o que estava sentindo.
Helena desceu:
- Às vezes as coisas são tão óbvias que não conseguimos ver.
Os dois ficaram frente a frente.
- Por que você fez isso?
A garota não respondeu. Não sabia. Tinha vontade de sumir, de tanta vergonha.
- Olha, Carlos – ela tentou, mas deteve-se.
- Fala!
- Eu sempre gostei de você – arriscou a menina, com a voz embargada. – Mas você nunca olhou pra mim. Por isso...
- Você devia ter me falado! – ele interrompeu, ríspido. Começou a se irritar. Lembrou de tudo o que passou, de todos os enganos, humilhações, enfim.
Dona Selma apareceu:
- Desculpe, ainda não achei as velas – ela não se deu conta do que se passava. – Mas Helena já está aí, né?
- Já, mãe – a filha fez um esforço pra falar.
- Então, fiquem à vontade.
Helena deixou uma lágrima cair dos olhos. Carlos teve pena. Não disse mais nada. Afastou-se.
- Espera, onde você vai?
- Não há mais nada pra fazer aqui.
- Não, por favor! – ela o agarrou pela camisa.
- Deixe-me ir, Helena.
- Vamos conversar!
- Conversar o quê? Está tudo mais do que claro. Você me fez de palhaço. Se divertiu às minhas custas! – e segurou a maçaneta da porta.
- Eu amo você, seu idiota! – ela gritou.
Tudo silenciou, de repente. A chuva, lá fora, deu um tempo. O rádio, lá em cima, parou de tocar.
Só se ouvia a respiração ofegante de Carlos e Helena.
- Não brinca assim comigo. Eu já sofri demais.
- Você acha que, se eu estivesse brincando, me arriscaria dessa maneira? Dentro da minha própria casa, com a minha mãe ali e tudo?
Carlos baixou a guarda:
- Como posso acreditar em você?
Ela não respondeu. Acariciou o rosto dele, aproximou o seu, olhou-o bem fundo nos olhos e deixou seus lábios serem tocados, uma cena bonita, com a qual ela sempre sonhou.
E dona Selma, com as velas na mão, preferiu deixar tudo no escuro mesmo.
THE END (ou seja, “o fim”)
Notas: só pra esclarecer, “Eight Days a Week” é uma música dos Beatles, assim como o “Love Me Do”, da segunda carta.


