sábado, 26 de abril de 2008

Capítulos 7- FINAL


CENA 1


E a chuva voltara com gosto. Caía forte, fria. Ventava. Os raios cortavam o céu, seguidos pelo estrondo dos trovões. Quase impossível andar assim. Quanto mais correr.
Mas Carlos não se importava. Molhado dos pés à cabeça, lutando para manter os olhos abertos, ele corria sem direção. A luz não havia voltado ainda. A rua estava imersa na escuridão.
Escorregou de novo. Caiu numa poça d’água. Levantou-se, escorregou mais uma vez. Era difícil manter o equilíbrio.


- Porcaria! Maldita Amanda! Eu pego você! – gritava, quase sem voz.
Começou a tremer. Espirrou. Já pegara chuva de manhã, mais essa agora. Ficaria resfriado.
Um ônibus dobrou a esquina.
- Ah, não! Só faltava essa!


A rua estava alagada. O ônibus veio, levantando aquela água pra todos os lados. Carlos disparou. O motorista percebeu, mas em vez de diminuir, pisou fundo.


- Carlos! Aqui! – gritou alguém.


Uma casa estava de portão aberto. Sem pestanejar, o rapaz pulou lá dentro e se protegeu atrás do muro. O ônibus passou, rugindo, molhando mais ainda a calçada.


- Essa foi quase, não? – disse a mãe de Helena, da porta da sala.
- Nossa, se foi – suspirou Carlos, tomando fôlego.
- O que faz debaixo desse toró? Dançando na chuva?


Dona Selma era sempre brincalhona.


- Não, não – o rapaz não deu explicações.
- Entra, vem. Vou pegar uma toalha pra você.
- Eu preciso ir.
A mulher fez cara de desaprovação:
- Nem pensar. Desse jeito, vai pegar uma “pneu”. Entra, a Leninha acabou de chegar, tá lá em cima tomando banho.
Carlos espirrou de novo. Melhor obedecer.


CENA 2


Carlos se secou e ficou na sala, esperando. Dona Selma pediu desculpas pela bagunça, não tivera tempo de arrumar. Foi procurar uma vela.
A sala estava escura, naturalmente.


- Não precisa se incomodar – disse o rapaz, por educação.


Lá de cima, vinha o barulho do chuveiro e a voz lastimável de Helena, acompanhando uma música que tocava em um rádio de pilha:


- Uuuuh, I need your love...
- Credo – Carlos fez uma careta. – Ainda bem que ela não ganha a vida cantando.
Tropeçou em alguma coisa.
- Que isso?
Abaixou-se: uma tesoura.
- Pessoal descuidado – pensou consigo mesmo. Apanhou o objeto e tentou encontrar uma mesa.


Não dava pra ver nada.
Foi tateando.


- Hold me... love me... – empolgava-se Helena.


Carlos esbarrou numa cadeira. Pensou em sentar-se, mas teve a idéia de verificar se não tinha algum prego, ou alfinete. Do jeito que as coisas andavam...
Fez bem: uma caixa de tachinhas aberta bem sobre o assento.


- Vou te contar, viu? – riu mais uma vez.
Estendeu a mão e encontrou a mesa. Pousou a tesoura sobre ela. Estranhou. A superfície era mais macia que o normal. Passou os dedos.
- Um jornal.
Um raio clareou tudo por um instante e Carlos pôde ver: eram vários jornais sobre a mesa, espalhados. E picotados.
- O que significa isso? – o rapaz arregalou os olhos, não acreditando.


Dessa vez, só o rádio cantou:


- Eight days a week... – e um novo raio revelou a “admiradora secreta” de pé, no alto da escada.


CENA 3


- Helena...


Ela o olhava sem reação. Estava mais surpresa do que ele. Não esperava ser descoberta assim, daquele jeito.


- Você o tempo todo – balbuciou Carlos, sem saber o que estava sentindo.
Helena desceu:
- Às vezes as coisas são tão óbvias que não conseguimos ver.
Os dois ficaram frente a frente.
- Por que você fez isso?
A garota não respondeu. Não sabia. Tinha vontade de sumir, de tanta vergonha.
- Olha, Carlos – ela tentou, mas deteve-se.
- Fala!
- Eu sempre gostei de você – arriscou a menina, com a voz embargada. – Mas você nunca olhou pra mim. Por isso...
- Você devia ter me falado! – ele interrompeu, ríspido. Começou a se irritar. Lembrou de tudo o que passou, de todos os enganos, humilhações, enfim.
Dona Selma apareceu:
- Desculpe, ainda não achei as velas – ela não se deu conta do que se passava. – Mas Helena já está aí, né?
- Já, mãe – a filha fez um esforço pra falar.
- Então, fiquem à vontade.


Helena deixou uma lágrima cair dos olhos. Carlos teve pena. Não disse mais nada. Afastou-se.


- Espera, onde você vai?
- Não há mais nada pra fazer aqui.
- Não, por favor! – ela o agarrou pela camisa.
- Deixe-me ir, Helena.
- Vamos conversar!
- Conversar o quê? Está tudo mais do que claro. Você me fez de palhaço. Se divertiu às minhas custas! – e segurou a maçaneta da porta.
- Eu amo você, seu idiota! – ela gritou.


Tudo silenciou, de repente. A chuva, lá fora, deu um tempo. O rádio, lá em cima, parou de tocar.
Só se ouvia a respiração ofegante de Carlos e Helena.


- Não brinca assim comigo. Eu já sofri demais.
- Você acha que, se eu estivesse brincando, me arriscaria dessa maneira? Dentro da minha própria casa, com a minha mãe ali e tudo?
Carlos baixou a guarda:
- Como posso acreditar em você?


Ela não respondeu. Acariciou o rosto dele, aproximou o seu, olhou-o bem fundo nos olhos e deixou seus lábios serem tocados, uma cena bonita, com a qual ela sempre sonhou.
E dona Selma, com as velas na mão, preferiu deixar tudo no escuro mesmo.


THE END (ou seja, “o fim”)


Notas: só pra esclarecer, “Eight Days a Week” é uma música dos Beatles, assim como o “Love Me Do”, da segunda carta.

domingo, 20 de abril de 2008

6º capítulo


Penúltimo capítulo

CENA 1

A sexta-feira amanheceu nublada e, perto do fim da manhã, desabou a maior chuva. Por isso, ao tocar o sinal, quem não levou sombrinha tratou de se juntar com quem tinha se prevenido.
Carlos, de pé sob a marquise em frente ao portão, ganhou a companhia de Helena.

- Ficou na mão também? – perguntou a garota.
O barulho da água caindo era tanto que ele quase não a escutou.
- Trouxe sim – respondeu Carlos, mostrando a mochila. – Estou só esperando o Henrique.

Mal acabou de falar, Henrique passou dentro de um carro com José e Amanda.

- Eu acho que ele já foi – disse Helena, só por dizer.

Carlos ficou olhando. Henrique sempre voltava com ele, fizesse sol ou chuva. Será que aquela bolada foi assim tão grave? Helena percebeu sua tristeza.

- Fica assim não. Já que não tem Henrique, serve Helena?
O garoto esboçou um sorriso:
- Não se preocupe – e armou a sombrinha – Entra aqui debaixo. É pequeno, mas dá pros dois.
Ela concordou.

CENA 2

Helena morava perto de uma praça. Tinha a idade de Carlos e o conhecia desde criança. Porém, os dois nunca tiveram muito contato. Ela era mais achegada à Deise, três anos mais velha.

- Eu gravei o seu filme – começou Carlos.
- Qual era?
- Curtindo a Vida Adoidado.

Helena arregalou os olhos:

- Nossa! Esse é bem antigo.
- É.
- Eu já vi uma penca de vezes. Sabe qual a parte que eu mais gostei?

O menino fez que não com a cabeça.

- A do desfile. Aquela que o cara sobe no palanque e começa a cantar – ela impostou a voz: - twist and shout... come on, come on, come on... Carlos não conteve a risada:
- Quem canta assim?
- Os Beatles.
- Eu sei – brincou o garoto. – Me refiro a sua voz de taquara rachada.
Helena se fez de ofendida:
- Bobo. Até parece que você canta bem.
- Melhor que você, sim.
- Depois a gente disputa um videokê – desafiou ela, continuando: - mas essa parte é muito maneira. Eu me amarro nos Beatles, sabe?
- Hã? – ele duvidou, incrédulo.
- Que foi?
- Como alguém da sua idade pode se “amarrar” numa coisa dessas? Eles são do tempo dos meus pais!
- E daí? Eu cresci ouvindo essas músicas. – e de novo, com a sua voz lastimável: - come on, come on, come on...
- Pára, pára, eu acredito! – implorou o amigo.
Ela riu.

CENA 3

Os dois seguiram um pouco em silêncio. Helena andava um palmo à frente de Carlos, que era mais alto e podia, assim, posicionar o guarda-chuva de modo a proteger os dois. Lado a lado não dava, só abraçados. O que estava fora de cogitação.

Isso causou uma situação engraçada: os dois tinham de caminhar no mesmo ritmo. Se um acelerasse, o outro tinha de acompanhar. Se um parasse sem avisar, ou Helena se molhava ou Carlos trombava com ela.

- Parecemos soldados em marcha – disse a menina, brincando: - Um dois, um dois!
Carlos não disse nada.
- Ainda chateado?
- Sim, mas não com o Henrique – e se calou novamente.
Helena parou sem avisar e os dois trombaram.
- Ei, cuidado!
Ela o olhou:
- O que está acontecendo?
- Nada.
- Está sim, você está estranho.
- Coisa minha – desconversou ele e recomeçou a andar.
Helena permaneceu parada na chuva.
- Vem, menina. Vai ficar aí se molhando?
Ela enxugou o rosto:
- Tem que ver com a Amanda, não?
Carlos a encarou:
- Como sabe? – e tapou a boca.
- Vai me contar o que houve ou quer que eu adivinhe o resto?
- O que você tem a ver com isso? – retrucou o menino, grosseiro.
Helena virou as costas:
- Idiota.

E foi embora na chuva mesmo.

CENA 4

O resto do dia transcorreu sem novidades. Choveu o tempo todo e, pra piorar, ainda faltou luz. Debruçado na janela, Carlos via o tempo passar e tentava esquecer os últimos acontecimentos. Incrível como tudo pode mudar de um dia pro outro. A noite caiu e a escuridão tomou conta da rua.

- Melhor ligar pra Light e ver se a luz volta – disse, consigo mesmo.
Fez o movimento de fechar a janela, mas deteve-se. Seus olhos quase saltaram das órbitas:
- Ei, você!

Uma pessoa estava agachada diante da caixa de correio. Por causa da penumbra, não dava pra saber quem era. Seria a “admiradora secreta”?

- Agora eu pego você! – gritou, e desceu correndo as escadas. Deise, mais uma vez, quase foi atropelada. De um salto, Carlos escancarou a porta e precipitou-se varanda afora.
Tomou aquele escorregão:
- Ai, droga!
A irmã apareceu na porta, rindo de se acabar:
- Procurando o que fazer?
- Eu vi! Era ela, Deise!
- Ela quem? – a moça não entendeu.
Sem responder, Carlos foi até o portão, mancando. Abriu a caixa do correio e tirou o envelope de lá:
- Aqui!

Deise foi logo ver, curiosa:

- Caramba! A tal admiradora!

Carlos foi até a calçada. Já a tinha perdido de vista.

- Fugiu de novo. Desgraçada, mas é hoje que eu te pego – e saiu correndo rua abaixo.
- Espere, não vai abrir a carta? – gritou a irmã, balançando o envelope.
O irmão já ia longe.
Deise, então, não se conteve e abriu a correspondência. Leu. Exclamou, surpresa:
- Eu não acredito!

[suspense no ar]

sábado, 12 de abril de 2008

Capítulo 5


CENA 1


A casa da Patrícia ficava do outro lado do viaduto. Era uma meia-água, que tinha aos fundos a encosta de um morro, tomada pelo mato. Duas palmas foram suficientes para acordar o boxer que tomava conta do quintal. Por sorte, ele estava preso.

- Pode vir! – chamou a dona da casa.
Carlos hesitou:
- Não morde?
- Morde – confirmou Patrícia, bem séria.


O garoto estancou no portão. A menina caiu na risada, enquanto o cachorro lutava pra se livrar das correntes:

- Ô, Carlos, larga mão de ser medroso! Não vê que o Popinho está preso?
- Popinho? – o rapaz achou graça. – Tá de sacanagem.
Henrique apareceu na janela:
- Anda logo, moleque! O bicho não vai lhe fazer mal. Patrícia já deu almoço pra ele.
- Hoje não – riu a dona da casa.
- Ele vai se soltar – choramingou Carlos. Ele era medroso assim mesmo. Mas por fim arriscou um passo.
- Pega, Pópi! – gritou Henrique. Carlos entrou correndo.


CENA 2

Lá dentro, passando por um corredor estreito, ficava a sala, um cômodo grande e espaçoso, mas com poucos móveis.
Ali Henrique, sentado no chão, analisava uns papéis.


- Tá vivo?
Carlos lhe deu aquela olhada:
- Palhaço.


Patrícia lhe jogou um livro:

- Todo seu. Império Romano.
- Ah, não! Logo o mais difícil?
- Quem manda ser o mais inteligente?


A contragosto, o recém-chegado se acomodou num canto e começou a ler. Henrique e Patrícia ficaram olhando.

- Ei, o que foi? Ninguém vai fazer nada?
- Eu já fiz – replicou Henrique, mostrando um dos seus papéis.


Carlos olhou:

- O escudo do Flamengo?
Os três voltaram às gargalhadas.
- Esse estudo está interessante – comentou uma voz feminina, tendo ao fundo os latidos do Popinho.
Era Raíssa, que acabava de chegar. Junto dela, José e Amanda, os irmãos que se amavam.
- Vamos dar um tempo? – sugeriu José, mostrando uma bola.


Ninguém gosta mesmo de estudar.

CENA 3

O grupo subiu a rua e chegou a uma espécie de clareira aberta no mato. Era a quadra.

- Vamos tirar os times.

José e Henrique, os mais velhos, foram para a escolha. Na primeira rodada, Raíssa com José e Amanda com Henrique. Armaram a rede e se posicionaram.
O primeiro saque foi por conta de Raíssa. Saiu forte, em cima da Amanda. Ela, porém, conseguiu defender e mandou para Henrique, que devolveu na medida. Amanda saltou e soltou o braço.
Indefensável.
Agora foi Henrique quem sacou. José interceptou, Raíssa levantou e o irmão da Amanda completou. Jogo empatado.


[corte de cena]

Na beira do campo, sentado ao lado de Patrícia, Carlos não estava muito à vontade. Não por causa dela, e sim porque a cada ponto marcado Henrique e Amanda se abraçavam, aquele abraço com toda a intimidade. Só faltava o beijo.

- O que houve? – estranhou Patrícia. – Está vermelho.
- Deve ser o calor.


De certa forma era.

CENA 4

O combinado foi a partida terminar quando uma das duplas fizesse dez pontos. O placar marcava 9 a 8 para Henrique e Amanda. Só que o saque estava com os adversários.
Raíssa se concentrou. Quicou a bola no chão. José lhe fez um sinal com os dedos. Ela deu o impuso e... VAP! Soltou a bomba.


A redonda foi em cima de Henrique, que acabou se atrapalhando. Antes de a bola bater no chão, contudo, Amanda mergulhou e salvou, mantendo a bola no ar. Henrique não teve o que fazer a não ser devolver para a outra quadra.

José recebeu com calma e passou para Raíssa. A garota fez o levantamento. José saltou e não aliviou: mandou a bola com tudo. Mas o golpe não foi suficiente para vencer a sua irmã, que fez nova defesa e levantou para Henrique. Raíssa saltou do outro lado, pronta para o bloqueio. Henrique, então, deu um leve toque e encobriu a adversária.
Ponto!


- Vencemos! – gritou Amanda, pulando no colo de Henrique. Os dois caíram no chão, um sobre o outro, numa comemoração pra lá de efusiva.
E Carlos virou o rosto pra não ver.


- Tomara que vençamos de 10 a 0 – pensou o rapaz, enciumado. Sentia-se ofendido. Qual era a da Amanda? A vontade que tinha era de sumir dali.
Carlos, porém, não foi o único a se doer com o “entrosamento” dos vencedores.
- Ei, relaxa – pediu José a Raíssa, enquanto saíam de quadra. – Foi só um jogo.


Raíssa olhou com ódio para Henrique.

- Está tudo bem – e encostou a cabeça no ombro de José.

Agora foi Patrícia quem não quis olhar.

CENA 5

A coisa estava feia para Carlos e Patrícia. Em poucos minutos o placar já marcava 5 a 0 contra, e não havia expectativa de melhora.
Henrique, todo cheio, preparava-se para novo saque. Carlos posicionou-se no fundo da quadra e, ao passar por Patrícia, orientou:


- Eu vou tentar defender. Se eu conseguir, manda na diagonal pra mim.

Ela fez sinal de OK.
Carlos estava certo de que o saque seria nele, como nas outras vezes. Porém, percebendo o acerto, Henrique mudou e mandou a bola em cima da Patrícia.


- Ah, não!

A menina, surpreendida, teve de armar a manchete do jeito que deu, e só pôde rifar a bola. Carlos, num ímpeto, voou do meio da quadra e largou a mão dali mesmo.
A bola viajou pelo ar, passou pela rede raspando e atingiu em cheio o rosto de Henrique:


- Aaai!!!

Ele caiu. Fez aquela cena, rolou de um lado pro outro, como se tivesse levado um tiro. As meninas foram socorrê-los. Carlos paralisou no meio da quadra.

- O que deu em você? – gritou Henrique, com raiva.
- Foi um acidente!
- Quase arrancou a minha cabeça fora!


Amanda ajudou-o a se levantar. Raíssa e Patrícia recolheram a rede e José pegou a bola. Todos foram embora.

- Foi sem querer – ainda insistiu Carlos, em vão.
Ficou ali sozinho.


CENA 6

O vento gelado entrou pela janela, balançando a cortina ruidosamente. Lá fora, naquela concavidade formada pelas montanhas, a lua já ia alta, lutando para manter-se acesa entre as nuvens, que aos poucos dominavam o céu.
Bem à sua frente, pequenas sombras negras passeavam entre a folhagem enquanto seus ouvidos captavam os ruídos dos insetos.
Tudo bem cinzento, como seu estado de espírito, ponderou Carlos.


- Eu não consigo entender.
Por quê? Primeiro aquela cena toda na festa, depois o “quase beijo” e agora essa indiferença toda. E ainda se jogou nos braços do seu melhor amigo!


O choro veio com tudo.

- Eu não merecia isso!

Pra que, então, brincar com os seus sentimentos? Por que ela mandou aquelas cartas?

- Tem alguém de graça com a sua cara – repetiu, pra si mesmo, as palavras de Henrique.
É, tinha razão. Amanda só queria se divertir às suas custas. Quando que uma garota como ela, linda e desinibida, se interessaria por Carlos?
Devia estar rindo agora.


- Desgraçada... você vai me pagar...

[tensão no ar]

sábado, 5 de abril de 2008

4º Capítulo



CAPÍTULO 4
CENA 1

A estranha, pega em flagrante, não conseguiu pronunciar uma palavra. Apenas se apressou em recuar pela calçada e aí, atingida pela luz do poste, se revelou:
Era Helena, colega de Deise.

- Que susto você me deu! – repreendeu Carlos, não escondendo a sua decepção. – O que faz aí?
- Vim falar com a sua irmã. Ela se encontra?
- Deise! – chamou o rapaz e, em seguida, para Helena: - Faz um favor, vê se tem carta pra mim na caixinha.
Helena achou graça:
- O correio não passa de noite, Carlos.
- Sério, Lena... é que eu não tive tempo de olhar durante o dia.
Dando um suspiro, a menina obedeceu:
- Não é que tem carta mesmo? – disse, acrescentando: - E não vem com o nome de quem mandou.

Ao ouvir essa última frase, Carlos arrancou a correspondência das mãos dela e disparou casa adentro, quase atropelando Deise, que saía pela porta.

- Nossa, o que deu nele? – quis saber a irmã, surpresa.
- Eu não fiz nada! – apressou-se Helena, bem ao seu estilo.

CENA 2

O envelope era parecido com o anterior. Carlos o abriu e retirou um papel tendo uma mensagem diferente, porém construída da mesma forma que a outra:

“LOVE ME DO YOU KNOW I LOVE YOU”

Era a confirmação que esperava!

- Me ame, você sabe que eu te amo – traduziu o rapaz, trêmulo. Só podia ter sido a Amanda, sem dúvida. Aquela mensagem era a cara dela! Carlos não cabia em si de tanta alegria. Sentiu vontade de pular, gritar... de ir na casa da menina.
Olhou para o relógio: dez horas.

Não, muito tarde. Melhor se conter. Mas era preciso arrumar uma forma de extravasar.
O violão estava ali do lado. Pegou-o. Esse era o momento mais feliz da sua vida. Pela primeira vez, sentia ser importante pra alguém, sentia-se amado. E isso tinha que ser brindado com música:

Essa noite eu sou
O homem mais feliz
Que o amor já fez...

- Seu irmão está desafinando lá em cima – comentou Helena, do portão, não contendo o riso.
- Não sei o que é pior: ouvi-lo cantar ou ouvi-lo tocar.
E riram mais ainda.

CENA 3

Lá na frente, o professor repassava detalhes sobre o trabalho: grupos de, no máximo, quatro pessoas, cada um teria que apresentar uma parte específica e explicá-la para a turma e, além disso, entregariam uma cópia escrita a cada aluno.

- No computador ou na máquina – completou.
O sinal tocou meio-dia. Nossa, as horas passaram rápido!
- Hoje teve aula do quê? – perguntou Carlos a si mesmo, dando uma olhada no caderno: história. Estivera o tempo todo com a cabeça no mundo da lua. Quando a gente se apaixona a gente fica assim, meio besta.
- Será que eu consigo?

Durante o intervalo ele bem que tentou, mas não conseguiu falar com Amanda. Ela estava bem animada no meio das colegas, não queria incomodar. Mas agora, a mocinha estava lá, no pátio, sozinha, dando sopa.
Aquela era a hora.
Guardou, então, o material na mochila, criou coragem e deu um passo. Recuou. Olhou as cadeiras, a lata de lixo, o quadro negro... todos pareciam zombar dele:

- Idiota!
- Você não vai conseguir!
- Covarde!

Balançou a cabeça e deu mais um passo. E outro. Seu rosto estava vermelho. Amanda olhou. Carlos tropeçou.
Caiu de cara no chão,

- Carlos! – chamou a menina, indo socorrer o amigo, enquanto os outros alunos faziam aquele coro de risadas.
- Você está bem?

O menino sacudiu o pó da camisa e tentou manter a pose:

- Sim, claro, não foi nada.
E os alunos rindo ao fundo.
- Tome mais cuidado da próxima vez – disse Amanda, acenando enquanto se afastava.
- Espere!
Ela parou.
- O que houve?
- Preciso falar com você.
- Então fala.
O menino hesitou.
- Estou vendo que não é importante – atalhou Amanda, com rispidez. – Olha, depois a gente se fala, tá legal?
E virou as costas.
-Nossa, pensou Carlos, o que foi que deu nela? Nem de longe lembrava a garota atenciosa do dia anterior. Aquela que quase lhe deu um beijo...

Decepcionado, ficou ali, no meio do pátio, observando sua admiradora secreta misturar-se à multidão de alunos que deixava o colégio.

CENA 4

A cena agora mostra Carlos no sofá, deitado, repassando os momentos que esteve com Amanda. Procurava um motivo para ela o tratar assim, tão friamente.

- O que foi que eu fiz?
Lembrou do “quase beijo”:
- Ou o que eu não fiz?
O telefone tocou. O coração saltou no peito.
- Alô? – voz embargada.
- Oi, Carlos, tudo bem?
- Quem está na linha?
- Sou eu, Helena.
- Ah, sim... – tom desapontado. – A Deise não está.
- Eu sei.
- Então...
- Ela me disse que você estaria em casa – antecipou-se ela – E eu queria te pedir um favor.
- Manda.
- Você pode gravar um filme hoje na Sessão da Tarde?
- Que filme vai passar?
- Sei lá. Mas sempre tem um bom. Segunda-feira passou Admiradora Secreta. Você viu?
Carlos se calou.
- Alô?
- Estou aqui, Lena.
- Então, você viu? Aquela história das cartas rolando de mão em mão, aquela confusão... ai, eu adorei!
- É, foi bem engraçado mesmo – desconforto na voz.
- Por falar em cartas... – Helena deu uma pausa: - Que carta era aquela que você recebeu ontem?
- Carta? – tentou disfarçar ele.

Ela o lembrou:

- A que eu te entreguei ontem.
- Ah, tá...
- Você parecia tão contente!
- Não era nada – cortou Carlos, dando fim à conversa: - Pode deixar que eu gravo o vídeo pra você.

E desligou.

- Eu, hein, menina enxerida – resmungou pra si mesmo, ao pôr o fone no gancho. Em seguida, apanhou a chave e saiu. Hora de um compromisso muito importante.