domingo, 20 de abril de 2008

6º capítulo


Penúltimo capítulo

CENA 1

A sexta-feira amanheceu nublada e, perto do fim da manhã, desabou a maior chuva. Por isso, ao tocar o sinal, quem não levou sombrinha tratou de se juntar com quem tinha se prevenido.
Carlos, de pé sob a marquise em frente ao portão, ganhou a companhia de Helena.

- Ficou na mão também? – perguntou a garota.
O barulho da água caindo era tanto que ele quase não a escutou.
- Trouxe sim – respondeu Carlos, mostrando a mochila. – Estou só esperando o Henrique.

Mal acabou de falar, Henrique passou dentro de um carro com José e Amanda.

- Eu acho que ele já foi – disse Helena, só por dizer.

Carlos ficou olhando. Henrique sempre voltava com ele, fizesse sol ou chuva. Será que aquela bolada foi assim tão grave? Helena percebeu sua tristeza.

- Fica assim não. Já que não tem Henrique, serve Helena?
O garoto esboçou um sorriso:
- Não se preocupe – e armou a sombrinha – Entra aqui debaixo. É pequeno, mas dá pros dois.
Ela concordou.

CENA 2

Helena morava perto de uma praça. Tinha a idade de Carlos e o conhecia desde criança. Porém, os dois nunca tiveram muito contato. Ela era mais achegada à Deise, três anos mais velha.

- Eu gravei o seu filme – começou Carlos.
- Qual era?
- Curtindo a Vida Adoidado.

Helena arregalou os olhos:

- Nossa! Esse é bem antigo.
- É.
- Eu já vi uma penca de vezes. Sabe qual a parte que eu mais gostei?

O menino fez que não com a cabeça.

- A do desfile. Aquela que o cara sobe no palanque e começa a cantar – ela impostou a voz: - twist and shout... come on, come on, come on... Carlos não conteve a risada:
- Quem canta assim?
- Os Beatles.
- Eu sei – brincou o garoto. – Me refiro a sua voz de taquara rachada.
Helena se fez de ofendida:
- Bobo. Até parece que você canta bem.
- Melhor que você, sim.
- Depois a gente disputa um videokê – desafiou ela, continuando: - mas essa parte é muito maneira. Eu me amarro nos Beatles, sabe?
- Hã? – ele duvidou, incrédulo.
- Que foi?
- Como alguém da sua idade pode se “amarrar” numa coisa dessas? Eles são do tempo dos meus pais!
- E daí? Eu cresci ouvindo essas músicas. – e de novo, com a sua voz lastimável: - come on, come on, come on...
- Pára, pára, eu acredito! – implorou o amigo.
Ela riu.

CENA 3

Os dois seguiram um pouco em silêncio. Helena andava um palmo à frente de Carlos, que era mais alto e podia, assim, posicionar o guarda-chuva de modo a proteger os dois. Lado a lado não dava, só abraçados. O que estava fora de cogitação.

Isso causou uma situação engraçada: os dois tinham de caminhar no mesmo ritmo. Se um acelerasse, o outro tinha de acompanhar. Se um parasse sem avisar, ou Helena se molhava ou Carlos trombava com ela.

- Parecemos soldados em marcha – disse a menina, brincando: - Um dois, um dois!
Carlos não disse nada.
- Ainda chateado?
- Sim, mas não com o Henrique – e se calou novamente.
Helena parou sem avisar e os dois trombaram.
- Ei, cuidado!
Ela o olhou:
- O que está acontecendo?
- Nada.
- Está sim, você está estranho.
- Coisa minha – desconversou ele e recomeçou a andar.
Helena permaneceu parada na chuva.
- Vem, menina. Vai ficar aí se molhando?
Ela enxugou o rosto:
- Tem que ver com a Amanda, não?
Carlos a encarou:
- Como sabe? – e tapou a boca.
- Vai me contar o que houve ou quer que eu adivinhe o resto?
- O que você tem a ver com isso? – retrucou o menino, grosseiro.
Helena virou as costas:
- Idiota.

E foi embora na chuva mesmo.

CENA 4

O resto do dia transcorreu sem novidades. Choveu o tempo todo e, pra piorar, ainda faltou luz. Debruçado na janela, Carlos via o tempo passar e tentava esquecer os últimos acontecimentos. Incrível como tudo pode mudar de um dia pro outro. A noite caiu e a escuridão tomou conta da rua.

- Melhor ligar pra Light e ver se a luz volta – disse, consigo mesmo.
Fez o movimento de fechar a janela, mas deteve-se. Seus olhos quase saltaram das órbitas:
- Ei, você!

Uma pessoa estava agachada diante da caixa de correio. Por causa da penumbra, não dava pra saber quem era. Seria a “admiradora secreta”?

- Agora eu pego você! – gritou, e desceu correndo as escadas. Deise, mais uma vez, quase foi atropelada. De um salto, Carlos escancarou a porta e precipitou-se varanda afora.
Tomou aquele escorregão:
- Ai, droga!
A irmã apareceu na porta, rindo de se acabar:
- Procurando o que fazer?
- Eu vi! Era ela, Deise!
- Ela quem? – a moça não entendeu.
Sem responder, Carlos foi até o portão, mancando. Abriu a caixa do correio e tirou o envelope de lá:
- Aqui!

Deise foi logo ver, curiosa:

- Caramba! A tal admiradora!

Carlos foi até a calçada. Já a tinha perdido de vista.

- Fugiu de novo. Desgraçada, mas é hoje que eu te pego – e saiu correndo rua abaixo.
- Espere, não vai abrir a carta? – gritou a irmã, balançando o envelope.
O irmão já ia longe.
Deise, então, não se conteve e abriu a correspondência. Leu. Exclamou, surpresa:
- Eu não acredito!

[suspense no ar]

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