sábado, 5 de abril de 2008

4º Capítulo



CAPÍTULO 4
CENA 1

A estranha, pega em flagrante, não conseguiu pronunciar uma palavra. Apenas se apressou em recuar pela calçada e aí, atingida pela luz do poste, se revelou:
Era Helena, colega de Deise.

- Que susto você me deu! – repreendeu Carlos, não escondendo a sua decepção. – O que faz aí?
- Vim falar com a sua irmã. Ela se encontra?
- Deise! – chamou o rapaz e, em seguida, para Helena: - Faz um favor, vê se tem carta pra mim na caixinha.
Helena achou graça:
- O correio não passa de noite, Carlos.
- Sério, Lena... é que eu não tive tempo de olhar durante o dia.
Dando um suspiro, a menina obedeceu:
- Não é que tem carta mesmo? – disse, acrescentando: - E não vem com o nome de quem mandou.

Ao ouvir essa última frase, Carlos arrancou a correspondência das mãos dela e disparou casa adentro, quase atropelando Deise, que saía pela porta.

- Nossa, o que deu nele? – quis saber a irmã, surpresa.
- Eu não fiz nada! – apressou-se Helena, bem ao seu estilo.

CENA 2

O envelope era parecido com o anterior. Carlos o abriu e retirou um papel tendo uma mensagem diferente, porém construída da mesma forma que a outra:

“LOVE ME DO YOU KNOW I LOVE YOU”

Era a confirmação que esperava!

- Me ame, você sabe que eu te amo – traduziu o rapaz, trêmulo. Só podia ter sido a Amanda, sem dúvida. Aquela mensagem era a cara dela! Carlos não cabia em si de tanta alegria. Sentiu vontade de pular, gritar... de ir na casa da menina.
Olhou para o relógio: dez horas.

Não, muito tarde. Melhor se conter. Mas era preciso arrumar uma forma de extravasar.
O violão estava ali do lado. Pegou-o. Esse era o momento mais feliz da sua vida. Pela primeira vez, sentia ser importante pra alguém, sentia-se amado. E isso tinha que ser brindado com música:

Essa noite eu sou
O homem mais feliz
Que o amor já fez...

- Seu irmão está desafinando lá em cima – comentou Helena, do portão, não contendo o riso.
- Não sei o que é pior: ouvi-lo cantar ou ouvi-lo tocar.
E riram mais ainda.

CENA 3

Lá na frente, o professor repassava detalhes sobre o trabalho: grupos de, no máximo, quatro pessoas, cada um teria que apresentar uma parte específica e explicá-la para a turma e, além disso, entregariam uma cópia escrita a cada aluno.

- No computador ou na máquina – completou.
O sinal tocou meio-dia. Nossa, as horas passaram rápido!
- Hoje teve aula do quê? – perguntou Carlos a si mesmo, dando uma olhada no caderno: história. Estivera o tempo todo com a cabeça no mundo da lua. Quando a gente se apaixona a gente fica assim, meio besta.
- Será que eu consigo?

Durante o intervalo ele bem que tentou, mas não conseguiu falar com Amanda. Ela estava bem animada no meio das colegas, não queria incomodar. Mas agora, a mocinha estava lá, no pátio, sozinha, dando sopa.
Aquela era a hora.
Guardou, então, o material na mochila, criou coragem e deu um passo. Recuou. Olhou as cadeiras, a lata de lixo, o quadro negro... todos pareciam zombar dele:

- Idiota!
- Você não vai conseguir!
- Covarde!

Balançou a cabeça e deu mais um passo. E outro. Seu rosto estava vermelho. Amanda olhou. Carlos tropeçou.
Caiu de cara no chão,

- Carlos! – chamou a menina, indo socorrer o amigo, enquanto os outros alunos faziam aquele coro de risadas.
- Você está bem?

O menino sacudiu o pó da camisa e tentou manter a pose:

- Sim, claro, não foi nada.
E os alunos rindo ao fundo.
- Tome mais cuidado da próxima vez – disse Amanda, acenando enquanto se afastava.
- Espere!
Ela parou.
- O que houve?
- Preciso falar com você.
- Então fala.
O menino hesitou.
- Estou vendo que não é importante – atalhou Amanda, com rispidez. – Olha, depois a gente se fala, tá legal?
E virou as costas.
-Nossa, pensou Carlos, o que foi que deu nela? Nem de longe lembrava a garota atenciosa do dia anterior. Aquela que quase lhe deu um beijo...

Decepcionado, ficou ali, no meio do pátio, observando sua admiradora secreta misturar-se à multidão de alunos que deixava o colégio.

CENA 4

A cena agora mostra Carlos no sofá, deitado, repassando os momentos que esteve com Amanda. Procurava um motivo para ela o tratar assim, tão friamente.

- O que foi que eu fiz?
Lembrou do “quase beijo”:
- Ou o que eu não fiz?
O telefone tocou. O coração saltou no peito.
- Alô? – voz embargada.
- Oi, Carlos, tudo bem?
- Quem está na linha?
- Sou eu, Helena.
- Ah, sim... – tom desapontado. – A Deise não está.
- Eu sei.
- Então...
- Ela me disse que você estaria em casa – antecipou-se ela – E eu queria te pedir um favor.
- Manda.
- Você pode gravar um filme hoje na Sessão da Tarde?
- Que filme vai passar?
- Sei lá. Mas sempre tem um bom. Segunda-feira passou Admiradora Secreta. Você viu?
Carlos se calou.
- Alô?
- Estou aqui, Lena.
- Então, você viu? Aquela história das cartas rolando de mão em mão, aquela confusão... ai, eu adorei!
- É, foi bem engraçado mesmo – desconforto na voz.
- Por falar em cartas... – Helena deu uma pausa: - Que carta era aquela que você recebeu ontem?
- Carta? – tentou disfarçar ele.

Ela o lembrou:

- A que eu te entreguei ontem.
- Ah, tá...
- Você parecia tão contente!
- Não era nada – cortou Carlos, dando fim à conversa: - Pode deixar que eu gravo o vídeo pra você.

E desligou.

- Eu, hein, menina enxerida – resmungou pra si mesmo, ao pôr o fone no gancho. Em seguida, apanhou a chave e saiu. Hora de um compromisso muito importante.

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