sábado, 12 de abril de 2008
Capítulo 5
CENA 1
A casa da Patrícia ficava do outro lado do viaduto. Era uma meia-água, que tinha aos fundos a encosta de um morro, tomada pelo mato. Duas palmas foram suficientes para acordar o boxer que tomava conta do quintal. Por sorte, ele estava preso.
- Pode vir! – chamou a dona da casa.
Carlos hesitou:
- Não morde?
- Morde – confirmou Patrícia, bem séria.
O garoto estancou no portão. A menina caiu na risada, enquanto o cachorro lutava pra se livrar das correntes:
- Ô, Carlos, larga mão de ser medroso! Não vê que o Popinho está preso?
- Popinho? – o rapaz achou graça. – Tá de sacanagem.
Henrique apareceu na janela:
- Anda logo, moleque! O bicho não vai lhe fazer mal. Patrícia já deu almoço pra ele.
- Hoje não – riu a dona da casa.
- Ele vai se soltar – choramingou Carlos. Ele era medroso assim mesmo. Mas por fim arriscou um passo.
- Pega, Pópi! – gritou Henrique. Carlos entrou correndo.
CENA 2
Lá dentro, passando por um corredor estreito, ficava a sala, um cômodo grande e espaçoso, mas com poucos móveis.
Ali Henrique, sentado no chão, analisava uns papéis.
- Tá vivo?
Carlos lhe deu aquela olhada:
- Palhaço.
Patrícia lhe jogou um livro:
- Todo seu. Império Romano.
- Ah, não! Logo o mais difícil?
- Quem manda ser o mais inteligente?
A contragosto, o recém-chegado se acomodou num canto e começou a ler. Henrique e Patrícia ficaram olhando.
- Ei, o que foi? Ninguém vai fazer nada?
- Eu já fiz – replicou Henrique, mostrando um dos seus papéis.
Carlos olhou:
- O escudo do Flamengo?
Os três voltaram às gargalhadas.
- Esse estudo está interessante – comentou uma voz feminina, tendo ao fundo os latidos do Popinho.
Era Raíssa, que acabava de chegar. Junto dela, José e Amanda, os irmãos que se amavam.
- Vamos dar um tempo? – sugeriu José, mostrando uma bola.
Ninguém gosta mesmo de estudar.
CENA 3
O grupo subiu a rua e chegou a uma espécie de clareira aberta no mato. Era a quadra.
- Vamos tirar os times.
José e Henrique, os mais velhos, foram para a escolha. Na primeira rodada, Raíssa com José e Amanda com Henrique. Armaram a rede e se posicionaram.
O primeiro saque foi por conta de Raíssa. Saiu forte, em cima da Amanda. Ela, porém, conseguiu defender e mandou para Henrique, que devolveu na medida. Amanda saltou e soltou o braço.
Indefensável.
Agora foi Henrique quem sacou. José interceptou, Raíssa levantou e o irmão da Amanda completou. Jogo empatado.
[corte de cena]
Na beira do campo, sentado ao lado de Patrícia, Carlos não estava muito à vontade. Não por causa dela, e sim porque a cada ponto marcado Henrique e Amanda se abraçavam, aquele abraço com toda a intimidade. Só faltava o beijo.
- O que houve? – estranhou Patrícia. – Está vermelho.
- Deve ser o calor.
De certa forma era.
CENA 4
O combinado foi a partida terminar quando uma das duplas fizesse dez pontos. O placar marcava 9 a 8 para Henrique e Amanda. Só que o saque estava com os adversários.
Raíssa se concentrou. Quicou a bola no chão. José lhe fez um sinal com os dedos. Ela deu o impuso e... VAP! Soltou a bomba.
A redonda foi em cima de Henrique, que acabou se atrapalhando. Antes de a bola bater no chão, contudo, Amanda mergulhou e salvou, mantendo a bola no ar. Henrique não teve o que fazer a não ser devolver para a outra quadra.
José recebeu com calma e passou para Raíssa. A garota fez o levantamento. José saltou e não aliviou: mandou a bola com tudo. Mas o golpe não foi suficiente para vencer a sua irmã, que fez nova defesa e levantou para Henrique. Raíssa saltou do outro lado, pronta para o bloqueio. Henrique, então, deu um leve toque e encobriu a adversária.
Ponto!
- Vencemos! – gritou Amanda, pulando no colo de Henrique. Os dois caíram no chão, um sobre o outro, numa comemoração pra lá de efusiva.
E Carlos virou o rosto pra não ver.
- Tomara que vençamos de 10 a 0 – pensou o rapaz, enciumado. Sentia-se ofendido. Qual era a da Amanda? A vontade que tinha era de sumir dali.
Carlos, porém, não foi o único a se doer com o “entrosamento” dos vencedores.
- Ei, relaxa – pediu José a Raíssa, enquanto saíam de quadra. – Foi só um jogo.
Raíssa olhou com ódio para Henrique.
- Está tudo bem – e encostou a cabeça no ombro de José.
Agora foi Patrícia quem não quis olhar.
CENA 5
A coisa estava feia para Carlos e Patrícia. Em poucos minutos o placar já marcava 5 a 0 contra, e não havia expectativa de melhora.
Henrique, todo cheio, preparava-se para novo saque. Carlos posicionou-se no fundo da quadra e, ao passar por Patrícia, orientou:
- Eu vou tentar defender. Se eu conseguir, manda na diagonal pra mim.
Ela fez sinal de OK.
Carlos estava certo de que o saque seria nele, como nas outras vezes. Porém, percebendo o acerto, Henrique mudou e mandou a bola em cima da Patrícia.
- Ah, não!
A menina, surpreendida, teve de armar a manchete do jeito que deu, e só pôde rifar a bola. Carlos, num ímpeto, voou do meio da quadra e largou a mão dali mesmo.
A bola viajou pelo ar, passou pela rede raspando e atingiu em cheio o rosto de Henrique:
- Aaai!!!
Ele caiu. Fez aquela cena, rolou de um lado pro outro, como se tivesse levado um tiro. As meninas foram socorrê-los. Carlos paralisou no meio da quadra.
- O que deu em você? – gritou Henrique, com raiva.
- Foi um acidente!
- Quase arrancou a minha cabeça fora!
Amanda ajudou-o a se levantar. Raíssa e Patrícia recolheram a rede e José pegou a bola. Todos foram embora.
- Foi sem querer – ainda insistiu Carlos, em vão.
Ficou ali sozinho.
CENA 6
O vento gelado entrou pela janela, balançando a cortina ruidosamente. Lá fora, naquela concavidade formada pelas montanhas, a lua já ia alta, lutando para manter-se acesa entre as nuvens, que aos poucos dominavam o céu.
Bem à sua frente, pequenas sombras negras passeavam entre a folhagem enquanto seus ouvidos captavam os ruídos dos insetos.
Tudo bem cinzento, como seu estado de espírito, ponderou Carlos.
- Eu não consigo entender.
Por quê? Primeiro aquela cena toda na festa, depois o “quase beijo” e agora essa indiferença toda. E ainda se jogou nos braços do seu melhor amigo!
O choro veio com tudo.
- Eu não merecia isso!
Pra que, então, brincar com os seus sentimentos? Por que ela mandou aquelas cartas?
- Tem alguém de graça com a sua cara – repetiu, pra si mesmo, as palavras de Henrique.
É, tinha razão. Amanda só queria se divertir às suas custas. Quando que uma garota como ela, linda e desinibida, se interessaria por Carlos?
Devia estar rindo agora.
- Desgraçada... você vai me pagar...
[tensão no ar]
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário