
CAPÍTULO 1
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CENA 1
CENA 1
Carlos morava com a mãe e a irmã numa casa pequena afastada do centro. A mãe era professora e Deise, a irmã, seguia seus passos, cursando magistério. Nesta manhã, ambas estavam a caminho da escola. Deise, do portão, gritou para Carlos, que tomava café:
- Tem carta pra você!
O menino achou estranho a correspondência ter chegado tão cedo, mas não esquentou: pegou o seu material e saiu, fechando a porta atrás de si. Deise o esperava no portão com o envelope. Na calçada, a mãe a esperava impaciente:
- Deixa isso aí e vamos!
A filha obedeceu, acenou brevemente e sumiu rua acima.
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CENA 2
Carlos apanhou então o envelope. Seu nome estava escrito com letras recortadas e coladas, provavelmente tiradas de um jornal. No remetente, não havia nada.
- Que estranho!
Intrigado, rasgou o lado do envelope e retirou dali um papel, onde se podia ler:
EIGHT DAYS A WEEK I LOVE YOU
O curioso é que a mensagem também foi construída com letras cuidadosamente
recortadas e coladas, de modo a não se dar nenhuma pista de quem a tenha mandado.
- Quem foi o palhaço que mandou isso pra mim?
Certo de que se tratava de uma brincadeira, colocou o envelope no bolso e tomou a condução.
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CENA 3
No caminho para o colégio, porém, uma pergunta foi martelando a sua cabeça: e se fosse verdade? Passara um filme no dia anterior onde uma garota mandava cartas anônimas para um rapaz, por não ter coragem de se declarar. Existiria alguém interessado em Carlos, assim como no filme?
Sem querer, sua mente se voltou para Patrícia. Ela era da sua turma e sentava lá atrás, perto da Amanda e da Raíssa. Volta e meia Patrícia o olhava, como se quisesse falar com ele. Podia ser ela, por que não?
Animado com a perspectiva, Carlos saltou do ônibus disposto a tirar a história a limpo.
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CENA 4
- Tem alguém de graça com a sua cara – falou Henrique.
Se tem ou não, descobriremos, pensou o menino. E lá foi ele atrás da autora da carta.
Patrícia estava na cantina, conversando com Amanda.
- Vamos, Carlos – falou consigo mesmo.
Era uma situação inteiramente nova. Ele nunca namorara em seus treze anos de vida e ninguém nunca lhe havia chamado a atenção. Mas como a mocinha demonstrara interesse, por que não lhe dar uma chance?
- Oi – o cumprimento saiu meio engasgado.
Patrícia não o reconheceu de imediato. Ajeitou os óculos e não escondeu a surpresa:
- Nossa! É você mesmo?
- Sim.
- O que faz aqui?
- Nada, vim só ver você.
O menino corou na hora. As palavras saíram de sua boca sem que percebesse. Tratou de se corrigir:
- Quer dizer, eu e o Henrique estamos precisando de mais uma pessoa pro trabalho... você está sem grupo?
- Pior que eu já combinei de fazer com a Raíssa e a Amanda – e olhou para a amiga, que abriu mão:
- Faz com eles. A Jenifer está sem grupo, ela vem pro nosso.
Patrícia pareceu gostar da idéia
- Está certo. Estou com vocês.
- Ótimo! Combinamos depois da aula.
E sorrindo de orelha a orelha, Carlos seguiu para a sala. Parecia estar no caminho certo.
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CENA 5
Vemos agora Carlos no portão de casa e uma garota se aproximando. Era Raíssa. Raíssa morava ali perto, algumas quadras à frente, mas os dois só se conheciam de vista. Carlos é tímido e, apesar de vê-la passar pra lá e pra cá, nunca tivera coragem de falar com ela.
- Oi, vou dar uma festa lá em casa hoje à noite – foi logo falando a garota – e gostaria que você fosse.
Surpreso, Carlos ficou quieto. Raíssa completou:
- Vai ser às oito. Espero você.
E foi embora. Nem deu margem a uma resposta negativa.
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CENA 6
À noite a festa estava rolando. Na sala, Raíssa afastou os sofás e a estante e improvisou uma pista de dança. Na falta daquelas luzes comuns em discotecas, ela pendurou pela parede pisca-piscas de natal que, embora não surtissem o efeito desejado, arrancou boas risadas.
Os convidados chegaram e tomaram conta do pequeno cômodo. No único espaço que sobrou livre – o vão da escada, Henrique assumiu o som e precisou vez após vez avisar:
- Cuidado pra não esbarrar no som!
Nem precisa dizer que não adiantou nada.
Carlos sentou-se num degrau da escada. Não se sentia à vontade observando toda aquela gente se divertindo. Na verdade, estava com raiva de si mesmo, por não saber se enturmar.
Poucas vezes Carlos conseguiu conversar com alguém, tirando Henrique, que era seu melhor amigo. Geralmente ele iniciava a conversa com um "oi", mas daí não sabia prosseguir, então a pessoa se afastava e ele se frustrava. Com isso acontecendo toda hora, o menino foi perdendo a confiança e, sem querer, se isolou.
Passou então a sentar nas primeiras cadeiras e a prestar atenção até nas aulas mais sacais. Virou o melhor aluno da turma. Com isso os outros alunos passaram a notá-lo e a se aproximar, geralmente nas épocas de prova. Mas Carlos continuava na dele. Isso o tornou antipático e lhe deu o rótulo de cdf.
- Eu não ligo – costumava dizer.
Mas ligava. Tinha noites que, ao se deitar, não agüentava e chorava. Nessas horas, gostava de dedilhar um violão velho que fora do seu pai: ia pro quintal, botava a cadeira lá e tocava umas músicas ruins à beça, mas que significava muito pra ele, por conter todos os seus sentimentos.
Atormentado por esses pensamentos, Carlos resolveu sair pra tomar um ar.
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CENA 7
Uma figura feminina o seguiu, mas hesitante, deteve-se na porta.
- Patrícia?
- Amanda – respondeu a menina, completando: - Você gosta mesmo dela.
- Dela quem? – o tom de voz de Carlos o traiu. Não sabia fingir.
Ele estava sentado no chão, encostado na parede, um pouco abaixo da janela. Amanda sentou-se ao seu lado.
- Você apareceu no momento certo, sabia?
O menino fez que não, com a cabeça.
- Patrícia sempre gostou do José, o meu irmão. Mas ele é um galinha. Fica enganando a garota: fala que gosta dela mas, pelas costas, vive dando em cima da Raíssa. Mal sabe ele que a Raíssa só tem olhos pro Henrique.
- Que modo de falar do seu irmão!
Ela não ligou:
- Bem, aí surgiu você. Desde o começo do ano que ela está querendo te conhecer, mas sabe... o seu jeito caladão inibiu a menina.
- Pode dizer a ela que eu não mordo – sorriu Carlos. Parecia que suas suspeitas tinham fundamento. Perguntou, mais por perguntar: - Onde é que eu entro nessa história?
Amanda se calou. Levantou-se e olhou pela janela as pessoas dançarem. Debruçou-se ali. Carlos postou-se ali também e Amanda virou o rosto.
- Ei, o que houve?
- Acho que eu devia ter ficado quieta.
E se afastou, deixando no ar um tom de arrependimento. Por quê? Sem entender, Carlos a procurou no meio das pessoas. Encontrou-a falando com o Henrique.
Em segundos as luzes se apagaram e os primeiros acordes de uma música romântica ressoaram pela sala.
Logo pares se formaram.
- Vai lá, Carlos – voltou Amanda – ela quer dançar com você.
E apontou Patrícia, sozinha.

Um comentário:
Eu gostei muito da microssérie, já tenho uma pista de quem seja a admiradora secreta, e não é a Patrícia!
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